sábado, 16 de outubro de 2010

O Problema do Eu-Lírico e o Teatro

“Porque tu sabes que é de poesia a minha vida secreta
Tu sabes, Dionísio, que ao teu lado te amando
Antes de ser mulher sou inteira poeta” [Hilda Hilst]

Eu conversava com o Bacco enquanto tomávamos café. Ele ria: “Olha! Aquele fulaninho ali, aquele ciclaninho lá, não sabem andar. Essas pessoas não sabem nem que estão andando”. Era um velho moço de cabelos finos e brancos que brincava de andar, paquerava moço ou moça, falava italiano e cuspia imagens vermelhas na boca; afirmava: “como é bom paquerar essa gente bonita, principalmente as belas andróginas que carnalizam a beleza de alma no corpo, externizando o espírito”.

Ainda falam pra mim que é impossível criar uma literatura teatralizante: Teatro é vinho e Literatura é vodca, não existe mistureba. Aí Tantas bobagens! Por que não conversam com Bacco, essa eterna divindade do contraste, que era também deus da poesia, do vinho e do teatro?

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O Problema do Eu-Lírico e a História

Vou falar que nem uma mulher desbocada. A História é um pedantismo cultural, a única ciência mutável e imperfeita que sonha ser científica, factual e inegável. É chata porque se consagra no cientificismo, mas é bela porque o absolutismo nela não há nada de generalizante. Os processos situados históricos não são repetitivos, enganam-se, a história não revive o estado puro do passado. As pessoas têm entre si uma pluralidade de corpos. Façam um exercício: observem um vaso hoje, depois amanhã... Tentem, então, re-escrever a totalidade do ontem. O que vão ter? O estado puro do vaso hoje?

A História é uma Hera, porque defende o casamento imperfeito com as outras musas das humanidades, porém é uma Afrodite, porque ela é irresistível. A História é a prisão da humanidade.

O Problema do Eu-Lírico e a Filosofia

Não devia fazer isso: escrever pensando na estética. Os leitores vão ler-me com raiva, porque lerão patologias literárias, diagnósticos filosóficos/ sociológicos/ históricos/ estetizantes; não poesia. Ninguém precisa saber de todas as dificuldades que o escritor sente na escrita (só algumas), os leitores não precisam saber que eu fundamentei a minha literatura em Marx, Weber, ou a puta que pariu. Pra quê? É texto literário ou texto científico? Faço a pergunta a vocês leitores: o que ganham sabendo que a minha maior influência filosófica é Thomas More? É sim. Sou assumidamente utopista e influenciada por um inglês. (Tem hora que penso que se eu fosse fazer filosofia, escreveria um ensaio falando de como esse idealismo-(proto)socialista inglês, na época do Renascimento, de repente se transformou analogicamente no mundo mercenário de Bentham: “O dinheiro é o instrumento para medir a quantidade de prazer ou de dor”. Mas essa dúvida tomaria-me muito tempo; com certeza, eu não escreveria. Não eu. Apesar da dúvida ser sufocante).


Entretanto, na literatura que escrevo essas ideologias são expressas nos sons das letras; na maneira que escolho entre a palavra X ou Y; nos conflitos que as personagens enfrentam. As ideologias existem enquanto universo literário, não necessariamente há uma obrigação em reconhecer os nomes de filósofos e citações de outros poetas. É muito fácil classificar um bom poema: ele toca na alma. Devo ter feito a bobagem de escrever uma frase de senso comum, mas essa é a ideologia primária e não tenho pretensão de afastar dela. Os homens já afastaram-se demais dessas ideias primárias (bobas), de bondade, de respeito, de brincar, de amar, de beber, de comer e de cantar. Atualmente, a vida é vivenciada para pagar as contas. Só.

Quanto a Filosofia e a Literatura, tem horas que essas amantes são extremas e infernais, tem horas que são suplicantes e divinais. O problema do meu eu-lírico com elas é que há uma contradição interna na imagem, às vezes as odeio com todas as minhas forças, às vezes são somente elas que fazem a minha vida ter sentido, então, as amo com todas as minhas energias. Não consigo separar a Literatura da Filosofia assim como a História está impregnada em ambas, distante, próxima, inconsciente, - ora uma deusa Hera, ora uma deusa Afrodite.

O Problema do Eu-Lírico

Na realidade, estudar literatura e linguagem nunca ajudou-me nos problemas e anseios do mundo cotidiano. Sou mesmo uma fugitiva. Deveria, pragmaticamente, separar e inventar um eu-lírico que não cruzasse com a minha vida biográfica: esse é o contrato ficcional, - eu finjo que existo e o leitor acredita. Crio uma estética sobre a pessoa que representa a mim mesma (ou pelo menos, acredito que represente a mim) , para o leitor entrar no universo literário com o ponto de vista dessa imagem que é de mentirinha. Essa imagem pode ter várias roupagens literárias (estilos para os mais cultos) e é dessa maneira que o universo literário ganha-lhe predicados, cor e cheiro. Mas existe um sério problema comigo, não consigo mentir senão for falando a verdade; minto porque sou sincera.

Será que eu preciso mesmo escrever explicitamente que sempre tive problemas com a escolha da sexualidade? Que, na realidade, nunca me imaginei cuidando de casa, comida e filhos. Enxergava-me como uma pessoa necessariamente artística, talvez uma artista ( talvez?) e que o grande problema de me assumir como uma poetisa não era eu; mas o mundo que é dominado pelo império da crueldade. Há uma determinação até na escolha do meu eu-lírico é preciso que seja a mais contraditória em relação a gentinha dominante, pergunto-me, qual é a razão de contradizer tanto? Resposta: várias, de Sartre, de Nietzsche (nunca me interessei na leitura deles) e de tantos filósofos que tentaram dissertar sobre a razão da literatura. Outra pergunta: quem conhece esses filósofos? Quem são leitores de literatura? O que é essa maldita literatura? Garanto que os grandes leitores de literatura não tomam ônibus quatro horas da manhã e enfrentam a Dutra para trabalhar na capital de São Paulo. Tenho absoluta certeza disso. Essas teorias filosóficas que o texto literário se apropriou, não servem como literatura impactante. Afinal, pergunto-me, a gente ler textos de literatura para brincar de ficção ou para criar filosofias necessariamente sérias? Entender a literatura como algo sem brincadeiras é um grande equívoco. Na ficção, há uma necessidade de sentir uma alegria difícil.

Che Russo

Meu querido Habar,

"Na lava de suor e sangue a Nada nada"
[Poesia Coletiva] 

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Samuel Rawet

Como é bonito um quadro negro fora da sala de aula!

Amigo B

Antes do nome, o texto literário simbolista já nasceu simbolista. Sem dúvida, o melhor lugar de aprender as coisas é na mesa do boteco, ou tomando café despreocupadamente; a sala de aula não é lugar para aprendizagem literária.