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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Rock n’ Roll e o fim do mundo


- Quero um pouco de a black tea and blues, please! Eu gosto e odeio São Paulo,
o frio rasgante
junto com desequilíbrio
 do calor cortante
são,no mínimo,
 intrigante. 
Meu, eu sei que isso era pra ser uma conversa, não uma poesia.
Do que vamos papear? 
- A revolução
- artística?! Magina...  A gente conseguiu algo em 1968, uma naturalidade em naturalizar o ato de romper. Pena que só deu pra fazer isso no âmbito estético, tem gente que não tem a mínima ideia do Glauber Rocha e dos poetas populares. Estou fazendo crítica. Não era pra gente falar besteira
- como anda os seus casinhos?
- tô noiva, vou casar nos Caribes no dia 22 de Outubro de 2040. É meio longe, porque a gente quer assistir o mundo acabando
- quando que acaba?
- ah! Falaram que ia acontecer em 2040, a gente quer ver. Tanto que o casamento vai ser numa ponte. Numa ponte amarela, a música de entrada vai ser uma música bonitinha, aquelas bem calmas, sabe.  A gente pensou em Valsinha, de Chico, até Clair de Lune, de Debussy. Aí vai ser bem trash, magina todo mundo pegando fogo e uma canção bonitinha no fundo
- quantos anos vai ter?
- eu (2040 – 1992 = 48), eu vou ter 48 anos e serei uma anônima. Talvez mais feliz, talvez mais triste.  Muitos amigos já terão morrido, quem sabe eu terei filhos até lá ou continuo sendo amante do Armando. Betinha, quando voltar de Alagoa, não se esqueça de passar um tempo na minha casa, eu não cozinho bem, fazer o quê, mas posso fazer café 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

À procura de amigos

Procura-se alguém pra conversar, normalmente eu converso com a parede do meu apartamento, mas ela não é muito conversadeira. A conversa vira um imenso monólogo, não avança e nem regride. Por isso, pode ser até uma alma ruim, mas alguém que possa me propiciar um diálogo.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Carta ao amigo: Felicidade, arte e outras besteiras



Meu amigo,

I
Gostaria de falar de mim. O tempo corre, pouco tempo temos e não nos vemos já não sei quanto tempo. Eu estou bem. Como anda as viagens? Como anda os filhos? Ainda é casado com a mesma pessoa? Está feliz? Não saberia nem começar as perguntas que eu tenho pra falar com você. Ficaria em silêncio se a gente marcasse um encontro qualquer pra conversar, ficaria ouvindo suas histórias, seus sonhos, realizações e mesmo decepções. Perdi prática com a fala, deixei de articular certas palavras, talvez deixei mesmo de acreditar.

Estou bem triste. Sinto saudades da sua companhia. O mundo é um imenso teatro, não sei se aguento viver com tantas mentiras, não ando suportando a personagem que inventei para mim. Meu sorriso é meio triste. Tem muito ator nesse redemoinho chamado mundo. Apesar de tudo, queria dizer que a minha saúde está boa; é que eu sinto falta mesmo de conversar com você. Mas o mundo moderno tirou de mim a capacidade de me comunicar com os outros, a estrutura social me ensinou a acostumar com certas infelicidades. Acho que nem conseguiria pronunciar a palavra: Bom dia!, se a gente marcasse um encontro.

O tédio tem sido meu grande amigo. Em tardes de domingo, noto-me um ser humano comum, um ratinho frágil, incapaz de liderar revoluções, principalmente, por medo. Ontem, eu sai com um rapaz, ele me propôs namoro, eu fiquei tão embrulhada com isso que resolvi não aceitar. Não consigo suportar a ideia de outro morando nesse apartamento, a minha louça suja e entre outras coisas. Deu-me certa ânsia, quis a solidão.

A solidão é o sentimento mais comum dessa modernidade. Não acho que na infância existe felicidade, nem tenho certeza que toda criança será adulto consequentemente. A vida adulta é uma invenção cruel, um padrão a ser seguido, um modelo já pré-postulado. Ao fugir da regra, nada me garante uma vida adulta serena e realizada; o que tenho por certo é uma vida incomum. No mínimo estranha. De uma certa liberdade ou felicidade que poucos sentirão inveja (é querido! Essa frase é conhecida da sua pessoa, certamente, culto como é, já reconheceu em um certo livro chamado “Perto do Coração Selvagem”, de Clarice Lispector, essa frase está no diálogo entre Joana e o Professor).  Essa escritora está muito na moda hoje em dia, até evito falar o quanto ela me influenciou. Ainda me influencia, as minhas leituras ficaram muito academizadas. De certa forma, virei uma chata. Você tinha razão, uma hora a minha insegurança mataria a minha alma de artista.

II

A arte é uma barbárie. Não consigo pensar nisso sem pensar em amor, angústia ou ódio (um pouco de frustração também). Desisti. Tento agradar demais os outros, não dá pra criar assim, tão atrofiada e frágil. Sinto saudades de conversar com você, uma palavra amiga qualquer entenderia algumas tristezas difíceis de elaborar verbalmente. O meu olhar no seu bastaria para o entendimento. Como artista, no mundo tão teatral, penso que a estética não mudaria o mundo, penso que já tem muitos, eu seria só mais uma. Não posso fazer mais nada de novo. A novidade hoje é o grande padrão, não suportaria ser nova o dia inteiro, sendo assim, tão absolutamente banal. Morreria de tédio.

Não quero ser artista. Prefiro ser professora para estudo infantil, viajante no mundo dentro de um carro ou mesmo uma cidadã brasileira comum inserida numa sociedade em que o paradigma é o consumo. Não estou feliz, porque abandonar essa ideia de inventar arte não tem sido fácil, mas a minha descrença é tão forte. É tão intensa. Não suportaria mais vender discursos de utopias pintadas de flores e construída por uma humanidade sonhadora. Devo discordar de muitos artistas por aí e dizer: a arte não basta, o homem precisa de mais.

III

No mundo sem Deus, fica difícil observar quem poderia estar altura dessa entidade. Já que a arte não é um inimigo forte suficiente. As musas seduzem a santidade de vez em quando, mas é tão rápido, que a santidade volta rapidamente viver a sua vida de caretices e crendinices. A hipocrisia esconde essa relação, nega o sexo. O mundo não para o tempo. O tempo é a única força que eu acredito.

IV

Meu amigo, as coisas estão duras em São Paulo. As mudanças podem acontecer, podem... Mas isso ainda não significa nada, a vida sempre será dura. Não se brinca com ela, se morre, se perde e envelhece. Eu estou triste e apreensiva, mas não quero conversar, só quero um amigo, me sinto um elefante, todo dia volto despedaçada e, cada dia, morre uma esperança. Fique bem, meu amigo, durma bem e tenha sonhos.

Sem mais,
De sua doce amiga,
M.M. 

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Crepúsculo Vermelho


(Breve reflexão sobre a Nova Ordem Mundial)

Nada se retoma, tudo é perdido
o tempo engole o mundo
encolhe
segundos

nada é como antes
mesmo a minha tristeza
amanhece mais triste
entristece o entardecer
muda

tudo se perde, ganha o presente
desconsolo primeiro de que o tempo
já é perdido

a nova ordem do mundo
fronte crepuscular
matando o ocidente
o novo sol poente é vermelho

o antigo crepúsculo que também era vermelho
cai em ruínas modernas, prédios terríveis
(mais feios que as ruínas no museu romano)

nada é igual, tudo se repete
o indivíduo se perde
o tempo engole multidões
nenhuma ideia nova de nação
Brasil, uma nova interrogação

domingo, 16 de setembro de 2012

Do conceito Deus e Política


Der note thu sei di pummm
Bikausi der uordi is beautiful
Der boquis on der taiblou is
Very very nice
Ai nouw que os God is very lindiu
Bute, note mistaque os God cristão uiti
As politiquices
Becausi, hipocrisei is very badi
No faça this
Mano, o teu the God is invisible,
Note precisa control uiti mãos very poderosas
Os godes dos mercados
your cocô is note many fedido que 
tua hipocrisia política 
e your blazé of Brazil 


Certo mano! – tenho dito, referências bibliográficas:
Hegel
Grande Otelo
Kant
Alexandre Pires
Menudos
Machado de Assis
Santo Agostinho 

terça-feira, 10 de julho de 2012

Occo Homo

Ovo
Dois olhos pretos
Omelete de sangue 
frito

Ratos,
No esgoto fundo,
pisam em cima 
de insetos podres;
não pagam IPVA 
Nem sabem o que é conta de luz 
vivem nas trevas

Eis o homem:
a vida dividida
entre o animal e a comida
comem
fodem 
uns aos outros 


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Espírito Roubado

não leva embora todo meu espírito
carrega minhas carnes por kilo
meu coração funciona no grito
grito de prisioneiro:
"Salve teu peito!"

salva a alma que lhe resta
mata tua bontade
destila todo teu ácido
nesses porcos de espíritos disfarçados
de velhas frágeis nos cultos espíritas


amargando o café,
mais amargo é o meu dia
engulo facas filosóficas
tomo enlatados econômicos


ainda morrerei de aglomerados
humanísticos
sugam os sucos dos meus fulcros
mastigam as células místicas
eu como capim teológicos
de falsas ideias paradísiacas


vou embora pro Caribe
Ou, talvez, pra Suíça
procurar os meus lucros
talvez eu realizo
sonhos bruscos
compro
um barco
um amor
masturbo
o meu suor
alivio
meu jack estripador
dosmesticado civilizado
ou então.... eu morro

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Bobagens

Quais são as coisas bonitas da vida? Aquela música que é interpretada pela Marisa Monte (não me recordo o título) que enumera uma série de doces: chocolate, brigadeiro e etc, tudo que há de proibido e gostoso no mundo. Eu vou lá.

A vontade que eu tenho de abraçar o mundo com duas mãos. A fome criativa.
O medo o empecilho
o jogo


PERIGO! Errou, perdi, fudeu
ainda não ainda não

Tem chance. Assiste a um filme - Que filme? - Titanic! (risadas). Ora, é romanticamente rídiculo, trágico, mas chorei que nem um bebê foi um marco histórico.

O navio afundou, Jack morreu.
A velhinha do Titanic só teve um anel para contar uma história, depois
morreu de ser tão velha e rica.

Vou ouvir Clair de Lune, a música me acalma tanto, vou pensar em lugares bonitos,
cantarolar, sonhar e fantasiar-me de azul.

Quero pipocas! Não se esqueça da manteiga, vou tirar o meu dia assistindo ao meu filme:
sonho meu sonho meu só
eu

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Poema delicado

Um poema rapidinho

queijadinho e
açúcar café

poeminha
feito com pressinha
e voando as palavras
com assinhas
                 
                      de explosões


cafeína
dura e forte
nicotina
que me queima
toda a palavra
amiúde e pequena
mata


mesmo um poeminha
simples delicado
inocente e – aparentemente – sem pecado
assassina
todas minhas
conformidades
                
                              de emoções


mesmo um poeminha
todo jovem e inteirinho
estraga

domingo, 17 de outubro de 2010

O Problema do Eu-Lírico e a Moda

Duas perguntas em relação a Moda:


a) O que seria de uma sociedade sem roupas?

b) A Moda, que é tão cotidiana, não pode ser uma arte que também nos expressa como seres humanos? E por que não?


Duas premissas sobre a Moda:

a) Se você tem algum problema com a Moda, ande sem roupas.

b) O vestuário cria imagens-ideológicas e jogos dominantes de poder. Na Moda, a desigualdade social é estabelecida materialmente.


Apêndice:


* Pena que na Filosofia, Ciências Sociais e na Literatura, essa desigualdade social está no mundo imaterial. Ilude-se, quem pensa que essa diferença social humaniza-se mais nessas áreas. Não. A desigualdade social só não fica escancarada, a vaidade é uma vaidade abstrata.

O Problema do Eu-Lírico e a Ideologia

Eu tenho ideologia, acredito nela, a minha vida é toda ela
Mas e você qual é a sua ideologia? Você sabe dela? 
*
Você realmente escuta os outros? Ou você ouve os outros?
Quantas posições ideológicas alheias você reconhece por dia?

*
Você sabe hoje qual é a ideologia que se afogou até a cabeça?

*
A ideologia é uma larva que impregna a pele
é a cinza que fica no cigarro
 que beira a esquina a alegria
e tromba com a coragem e a euforia
é uma melancolia
uma porcaria
                                       toda ideologia

*

A ideologia é uma merda que todo mundo caga 

O Problema do Eu-Lírico e a Política

Tenho até medo de começar esse assunto. Tem gente que fica muito irritada. Não compreende por ignorância mesmo, não aceita, ou, por estar tão imerso nessa prática racional (a Política), não consegue abrir os olhos para outras espécies de práticas ideológicas que visam a sensibilidade; mas que não são necessariamente panfletárias ou partidárias, porque vão um pouco além do mundo racional, cronológico e empírico. (Não faço parte da noção: a arte pela arte, mas também não gosto da auto-valorização que fizeram com a noção oposta: a política pela arte. A arte é da humanidade. E só).

Não quero escrever uma literatura partidária. Não escrevo pra políticos somente; escrevo pra homens pobres, homens ricos, bichos, anjos, espíritos, deuses, tiranos, perversos, neuróticos e solitários. Escrevo por necessidade individualista que é desabrochar para o mundo e tornar-me lírio flutuante, não para denunciar e nem para horrorizar. Afinal, até aqueles que se horrorizam com literatura, sentem prazer de reconhecer o motivo desse horror literário, - por que existem existencialistas, nietzscheanos e marxistas?Por que gostam de Sartre ou de Marx? (A gente só gosta de algo que nos dá prazer e nos traduza como somos). Esse povo existe por causa do conhecimento esparso na humanidade; existem porque o conhecimento é soberbo; existem porque outros acreditam neles. É gostoso entender o horror estético, não é ruim ser soberbo, é bom e pronto.

Não escrevo literatura panfletária. A minha lente, que é um socialismo-utópico, está expressa no ritmo das palavras, nos pontos de vistas das personagens e no estado de raiva, de pena, de anseio, talvez de angústia que o eu-lírico sente em relação ao mundo. Não escrevo para converter ninguém a uma ideologia política, não quero militar com literatura; diria Cortázar: “que existem literaturas revolucionárias que não tinham nada de revolucionário como literatura”. Esses fragmentos escritos por mim não têm intenção de revolucionar o mundo e pregar o socialismo, ou partidarismo. A consciência política existe em outras maneiras de representações que não são somente essas duas relatadas acima; a partir do momento que homens começam a viver coletivamente com leis,  ações políticas começaram a ser praticadas implicitamente ou explicitamente.

Contradição é dizer: Tudo é política e, depois, falar que existem ações mais políticas que as outras.

sábado, 16 de outubro de 2010

O Problema do Eu-Lírico e o Teatro

“Porque tu sabes que é de poesia a minha vida secreta
Tu sabes, Dionísio, que ao teu lado te amando
Antes de ser mulher sou inteira poeta” [Hilda Hilst]

Eu conversava com o Bacco enquanto tomávamos café. Ele ria: “Olha! Aquele fulaninho ali, aquele ciclaninho lá, não sabem andar. Essas pessoas não sabem nem que estão andando”. Era um velho moço de cabelos finos e brancos que brincava de andar, paquerava moço ou moça, falava italiano e cuspia imagens vermelhas na boca; afirmava: “como é bom paquerar essa gente bonita, principalmente as belas andróginas que carnalizam a beleza de alma no corpo, externizando o espírito”.

Ainda falam pra mim que é impossível criar uma literatura teatralizante: Teatro é vinho e Literatura é vodca, não existe mistureba. Aí Tantas bobagens! Por que não conversam com Bacco, essa eterna divindade do contraste, que era também deus da poesia, do vinho e do teatro?

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O Problema do Eu-Lírico e a História

Vou falar que nem uma mulher desbocada. A História é um pedantismo cultural, a única ciência mutável e imperfeita que sonha ser científica, factual e inegável. É chata porque se consagra no cientificismo, mas é bela porque o absolutismo nela não há nada de generalizante. Os processos situados históricos não são repetitivos, enganam-se, a história não revive o estado puro do passado. As pessoas têm entre si uma pluralidade de corpos. Façam um exercício: observem um vaso hoje, depois amanhã... Tentem, então, re-escrever a totalidade do ontem. O que vão ter? O estado puro do vaso hoje?

A História é uma Hera, porque defende o casamento imperfeito com as outras musas das humanidades, porém é uma Afrodite, porque ela é irresistível. A História é a prisão da humanidade.

O Problema do Eu-Lírico e a Filosofia

Não devia fazer isso: escrever pensando na estética. Os leitores vão ler-me com raiva, porque lerão patologias literárias, diagnósticos filosóficos/ sociológicos/ históricos/ estetizantes; não poesia. Ninguém precisa saber de todas as dificuldades que o escritor sente na escrita (só algumas), os leitores não precisam saber que eu fundamentei a minha literatura em Marx, Weber, ou a puta que pariu. Pra quê? É texto literário ou texto científico? Faço a pergunta a vocês leitores: o que ganham sabendo que a minha maior influência filosófica é Thomas More? É sim. Sou assumidamente utopista e influenciada por um inglês. (Tem hora que penso que se eu fosse fazer filosofia, escreveria um ensaio falando de como esse idealismo-(proto)socialista inglês, na época do Renascimento, de repente se transformou analogicamente no mundo mercenário de Bentham: “O dinheiro é o instrumento para medir a quantidade de prazer ou de dor”. Mas essa dúvida tomaria-me muito tempo; com certeza, eu não escreveria. Não eu. Apesar da dúvida ser sufocante).


Entretanto, na literatura que escrevo essas ideologias são expressas nos sons das letras; na maneira que escolho entre a palavra X ou Y; nos conflitos que as personagens enfrentam. As ideologias existem enquanto universo literário, não necessariamente há uma obrigação em reconhecer os nomes de filósofos e citações de outros poetas. É muito fácil classificar um bom poema: ele toca na alma. Devo ter feito a bobagem de escrever uma frase de senso comum, mas essa é a ideologia primária e não tenho pretensão de afastar dela. Os homens já afastaram-se demais dessas ideias primárias (bobas), de bondade, de respeito, de brincar, de amar, de beber, de comer e de cantar. Atualmente, a vida é vivenciada para pagar as contas. Só.

Quanto a Filosofia e a Literatura, tem horas que essas amantes são extremas e infernais, tem horas que são suplicantes e divinais. O problema do meu eu-lírico com elas é que há uma contradição interna na imagem, às vezes as odeio com todas as minhas forças, às vezes são somente elas que fazem a minha vida ter sentido, então, as amo com todas as minhas energias. Não consigo separar a Literatura da Filosofia assim como a História está impregnada em ambas, distante, próxima, inconsciente, - ora uma deusa Hera, ora uma deusa Afrodite.

O Problema do Eu-Lírico

Na realidade, estudar literatura e linguagem nunca ajudou-me nos problemas e anseios do mundo cotidiano. Sou mesmo uma fugitiva. Deveria, pragmaticamente, separar e inventar um eu-lírico que não cruzasse com a minha vida biográfica: esse é o contrato ficcional, - eu finjo que existo e o leitor acredita. Crio uma estética sobre a pessoa que representa a mim mesma (ou pelo menos, acredito que represente a mim) , para o leitor entrar no universo literário com o ponto de vista dessa imagem que é de mentirinha. Essa imagem pode ter várias roupagens literárias (estilos para os mais cultos) e é dessa maneira que o universo literário ganha-lhe predicados, cor e cheiro. Mas existe um sério problema comigo, não consigo mentir senão for falando a verdade; minto porque sou sincera.

Será que eu preciso mesmo escrever explicitamente que sempre tive problemas com a escolha da sexualidade? Que, na realidade, nunca me imaginei cuidando de casa, comida e filhos. Enxergava-me como uma pessoa necessariamente artística, talvez uma artista ( talvez?) e que o grande problema de me assumir como uma poetisa não era eu; mas o mundo que é dominado pelo império da crueldade. Há uma determinação até na escolha do meu eu-lírico é preciso que seja a mais contraditória em relação a gentinha dominante, pergunto-me, qual é a razão de contradizer tanto? Resposta: várias, de Sartre, de Nietzsche (nunca me interessei na leitura deles) e de tantos filósofos que tentaram dissertar sobre a razão da literatura. Outra pergunta: quem conhece esses filósofos? Quem são leitores de literatura? O que é essa maldita literatura? Garanto que os grandes leitores de literatura não tomam ônibus quatro horas da manhã e enfrentam a Dutra para trabalhar na capital de São Paulo. Tenho absoluta certeza disso. Essas teorias filosóficas que o texto literário se apropriou, não servem como literatura impactante. Afinal, pergunto-me, a gente ler textos de literatura para brincar de ficção ou para criar filosofias necessariamente sérias? Entender a literatura como algo sem brincadeiras é um grande equívoco. Na ficção, há uma necessidade de sentir uma alegria difícil.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A Frustração do Romântico

Já perdi toda vontade de escrever análises sobre mim mesmo. O eu-próprio é-me impossível. Não sinto mais vontade de escrever (sou muito autobiográfica, fico inteiramente nua para o leitor; esse é o problema da sinceridade). Ando pra lá, ando pra cá por toda a casa, ando sem destino, limitada e vendo muros titânicos por todos lados; ando pra lá e ando pra cá, sem fome, apenas olhando as coisas: as mesmas coisas de sempre. Cadê o meu eu que não existe nessa casa? Cadê? Não sou iluminada nem inteligente. Se eu fosse não seria problema controlar esse eu, tão devastador, gata selvagem com garras cortadas. Esse eu não existe nessa casa, talvez ele exista em outros lugares. Acho que vou sumir por alguns dias. Sou mesmo uma fugitiva.

domingo, 10 de outubro de 2010

Sobre o TU

Não deveria romantizar tanto a Língua Portuguesa, fingir-me como uma espécie feminina de Nelson Gonçalves, Chico Buarque mais amoroso, Vinicius de Moraes ou poemas parnasianos cantados no boteco. Só, para descrever a ti, essa doce sensação que tenho quando tomamos café juntos, vinho e tragamos um pouco de Vila Rica.

Não deveria utilizar nessa prosa o pronome tu para falar de você; pois, eu penso em você, acordo com você, sonho com você e culpabilizo você por todo o prazer e merda que idealizo nas minhas ficções, culpando-lhe sempre com esse ódio apaixonante que entrego a você quando nos abraçamos. Não ao tu. Sinceramente, nem sei como prosear com o pronome tu para falar de alguém que penso só como você.

Tu não tenhas raiva de mim, meu amor, só porque não consigo romantizar a Língua Portuguesa. Eu escrevo com um certo desleixo por causa da utilização de palavrões deselegantes, sintaxe desajeitada, pontuações equivocadas e pronomes oblíquos utilizados antes do verbo. Não me culpes, pois não deveria romantizar essa língua e fingir que ela é diferente de nós dois, porque só você é capaz de deixar a minha ortografia mais caótica do que já é. Mas, (já que me pede com tanto amor), eu prometo que vou utilizar o TU mais vezes; só porque é você. Não deveria. Mas vou como prova da minha devoção que sinto por sua coisa, idealizar-te com pronomes diferentes do real.

Vou chamar VOCÊ de TU, te ligarei no meio da tarde e direi: Boa noite, meu amor, como passaste o dia? Você vai rir; estranha achará a minha mudança de pronomes tão repentinamente. Aposto que vai perguntar: por que me chama de TU e não de VOCÊ? Quando você me fizer essa pergunta, eu vou responder assim: chamo-te de TU, porque o pronome VOCÊ é um desleixo tão grande para esse amor banhado de vinho, cafeína e Vila Rica; TU és o pronome VOCÊ mais apaixonado. Aí! Como eu TU amo VOCÊ!...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Do Amor

Evito falar do amor intelectual, do amor ideal, do amor civilizante e do amor carnalizante; evito dizer coisas, ao vento, dos objetos amados, respectivamente, os que me corresponderam e os que não me corresponderam. Não gosto nenhum pouco da ideia de amar porque é preciso, ou porque uma pessoa me faz falta. E, de vez em quando, eu amo.

Eu tinha amiga chamada Bruna que queria muito escrever sonetos de amor, existia nela uma obsessão pela perfeição da forma desse soneto e a mensagem solene, também igualmente bela, que haveria nesse amor de signos a ser transmitida em poesia. A Bruna nunca conseguiu escrever sequer uma palavra, apenas algumas ideias lhe sondaram antes de dormir, mas elas nunca se realizaram verbalmente.

Ela amou esses sonetos, irrealizáveis, como ninguém jamais havia amado. Nada me pareço com a minha amiga poetisa, temos obsessões diferentes. Às vezes, eu me acho um tanto mais ingênua que a Bruna, porque ela pensava com malicia e carinho na forma estética daquele soneto, queria-o perfeito. A poetisa calculava, racionalizava, re-escrevia e tinha raiva das imperfeições rascunhadas daquele primeiro soneto; na realidade, a Bruna queria a glória de concebê-lo inteiramente belo, sublime e sereno.

Não queria mesmo entrar numa conversa intelectual, escrevo sem parar e com bastante raiva. Não quero pensar na coerência do meu pensamento e finalidade desse texto, não queria mesmo entrar nessa conversa de amor intelectual, escrevo porque a carne me exige palavra. O Amor também exige palavras, exige o ódio, exige a cama, o sexo e as noites não dormidas. O Amor me exige muito mais como alguém que não é coisa e que é bicho, é metade gente, metade felino, canino e cavalo. O Amor é a obrigação eterna de sempre saber e nunca saber: se a Sensibilidade é possível, se o Ódio traduz uma mensagem, tão piegas, como eu te amo, se a Loucura é a forma escultural da androginia chamada Amor.

Não queria mesmo entrar numa conversa intelectual. Antes de verbalizarem o Amor, ele já tinha sido carnal, já tinha sido endeusado, já era  respectivamente três: Erô (desejo), Agapô(espiritual) e Philo (amante). Era amor de vinhos vomitados nas mesas e nas gargantas das Bacantes. Não entendo de poesia, não entendo de amor intransitivo, de amor sujo e amor monstruoso, não entendo e nem sei se quero entender desse jeito intelectual. Eu quero o Amor em carne viva, quero cuspir nele e que ele me mostre as suas entranhas, quero amor sem intelectos, só o corpo, só as mãos, só as pernas e sem ideias. A carne viva do amor. A nudez do verbo amar.