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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Rock n’ Roll e o fim do mundo


- Quero um pouco de a black tea and blues, please! Eu gosto e odeio São Paulo,
o frio rasgante
junto com desequilíbrio
 do calor cortante
são,no mínimo,
 intrigante. 
Meu, eu sei que isso era pra ser uma conversa, não uma poesia.
Do que vamos papear? 
- A revolução
- artística?! Magina...  A gente conseguiu algo em 1968, uma naturalidade em naturalizar o ato de romper. Pena que só deu pra fazer isso no âmbito estético, tem gente que não tem a mínima ideia do Glauber Rocha e dos poetas populares. Estou fazendo crítica. Não era pra gente falar besteira
- como anda os seus casinhos?
- tô noiva, vou casar nos Caribes no dia 22 de Outubro de 2040. É meio longe, porque a gente quer assistir o mundo acabando
- quando que acaba?
- ah! Falaram que ia acontecer em 2040, a gente quer ver. Tanto que o casamento vai ser numa ponte. Numa ponte amarela, a música de entrada vai ser uma música bonitinha, aquelas bem calmas, sabe.  A gente pensou em Valsinha, de Chico, até Clair de Lune, de Debussy. Aí vai ser bem trash, magina todo mundo pegando fogo e uma canção bonitinha no fundo
- quantos anos vai ter?
- eu (2040 – 1992 = 48), eu vou ter 48 anos e serei uma anônima. Talvez mais feliz, talvez mais triste.  Muitos amigos já terão morrido, quem sabe eu terei filhos até lá ou continuo sendo amante do Armando. Betinha, quando voltar de Alagoa, não se esqueça de passar um tempo na minha casa, eu não cozinho bem, fazer o quê, mas posso fazer café 

O monstro de olhos vermelhos


 1
   
Escadas largas, grandes. O céu noturno gritando socorro por sua falta de estrelas. Um homem sozinho no meio do caminho bebe uma latinha de cerveja. Os olhos vermelhos vigiam o lugar, o cachorro late para um ratinho que na fuga tropeça numa lata de cerveja.  Cão come o ratinho fugitivo, o sangue se mistura com os olhos vermelhos. Olhos que fixam na figura do homem.


Dois minutos atrás, o bêbado jogou a lata de cerveja, não notou a vida que acontecia ao seu redor. Cantarolava uma canção inventada. Ele, chamado pelos amigos de Wilson, olhava para os dois bolsos da calça. Uma calça verde, o bolso direito furado, o esquerdo guardando uma pilha de papéis inúteis.  Um desses papéis era uma carta de sua ex-esposa:


“ Fui embora. Arrumei a minha mala, vou morar em Espírito Santo, levei embora comigo a Cris. Pelo bem dela e nosso, não nos procure, estamos bem.
Assinado,
Ann “


Wilson casara com Ann em 1989. Ele tinha uns vinte e dois. Ambos tinham se conhecido no Rio, era um show de rock de uma banda norte-americana. Foi um acaso que se apaixonaram, outro acaso que se traíram, mais um infeliz acaso que se separaram. Os olhos vermelhos do cachorro lamentavam  a falta de água fresca, o animal uivava para lua. O homem chorava sozinho na noite escura. Rasgava a carta da Ann,  ele pensava, a caligrafia de Ann sempre foi caprichosa, ela sempre foi uma mulher bonita, mesmo agora já envelhecendo, continuava bonita.

2

Uma tropa de policiais fazia ronda próximo de uma favela. Tinham trocado tiros com uma malta de bandidos, entraram em um beco. Escutaram um estrondo, ouviram um som qualquer. Confundiram com bala de revólver. Atiraram pra matar.

Polícia 1: Existe uma ordem dos homem lá de cima, a gente respeita
Cachorro: au au
Polícia 5: os meleque estão escondido
Cachorro: au au au aua au

A polícia 6 atira no cachorro para matar, o cão foge de medo. Os olhos vermelhos brilham debaixo de um monte de lixo.  Os policiais não encontram nada no lugar. Há uma trilha de sangue que inicia nas escadas e termina na lata de cerveja, misturada com o ratinho que morreu pelo monstro dos olhos vermelhos. Um inocente desarmado morre sem o término da história, outro caso interrompido. 

3

O monstro dos olhos vermelhos sai do esconderijo. Naquele lugar ermo, existem dois corpos.  O cachorro faz o trabalho do perito, fareja os dois corpos, o animal encontra os resíduos da carta de Wilson, uma memória da tristeza, daquele cidadão anônimo, é vigiada pelos olhos vermelhos como se fosse alimento.  

A vida do cidadão anônimo, para os olhos vermelhos, pode significar nada. Na guerra escondida, entre ratos e cachorros, Wilson foi uma vítima invisível. É provável que nem a família dele saiba do acontecido. Tudo bem. O cão terá mais carne para comer a noite. Wilson morreu de sorte e de tristeza, todos os lugares são ótimos para suicídios involuntários e desistências cabais. A morte de um cidadão anônimo interfere nos homens de bem igual ao um rato, é mais fácil sofrer por um bichinho morto do que brigar com monstros de olhos vermelhos. 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Tagaralices


1

Na minha infância, uns vinte anos atrás, me chamavam de pentelha e tagarela, sempre recebi advertências de professores em casa, dizendo pra minha mãe que eu era terrível, não parava quieta. Não era muito entendida das palavras, não sabia o que significava a palavra “tagarela”.  Mas a primeira definição de tagarela que conheci era: “alguém que falava pelos cotovelos”.
O que covenhamos é absolutamente estranho. Cotovelos não têm boca. Como andava sempre com os meninos, (porque não gostava de brincadeiras de meninas, eram muito paradas e entediantes).  As minhas professoras sempre chamavam a minha atenção:
- ei menina, fica quieta...
Sempre chamavam a minha mãe.
- a sua filha não tem jeito, é uma pentelhinha!

2

- Pipa, você sabe o que significa inefável?
- inefável? Ô psora, o que é inefável?
- é algo que não se pode dizer
- ué, então diz,
Manias de coisas proibidas! Fiquei querendo saber o que não se podia dizer do Inefável, mas a professora me olhou com um rosto medonho e fui levada para Diretoria. Em casa, tinha uma advertência bem grande: “A sua filha precisa aprender a se comportar e não fazer mais perguntas indecentes!” . 
- que pergunta indecente você fez, Pipa?
- eu perguntei o que era inefável?
- filha que palavra é essa?
- então... a professora falou que não se pode dizer, então eu disse, ué então diz. Mamãe, a minha curiosidade aumenta quando as coisas não se podem dizer. Mãe, o que não pode dizer do inefável?
- filha, vai pro quarto!
- por que?
- você é muito perguntadeira!

3

Perguntadeira é sinônimo de tagarela? Afinal de contas, o que não se pode dizer do Inefável? E se for uma daquelas coisas de adulto, gente grande sabe! Os adultos são cheio dessas pilhas, tudo para eles é dicotômico ou, muito mesmo, generalizante. Por exemplo, a minha mãe vive falando pra mim que os homens são todos cafajestes. Se eles não são, vão ser um dia.  Adultos!
Afinal, não se pode falar do inefável, porque ele é feio. Tipo, o monstro do lago. O que há de estranho nessas palavras? Puxa, uma palavra tão bonita esconde uma coisa feia, igual o lago da minha casa! ( Eu preciso fazer uma pausa para explicar o monstro do lago. Na frente da minha casa, tem um lago bonito que a gente sempre brinca nele, um dia era quase noite, a minha tia tentou tirar a gente lá ( eu e a turminha!). Então, ninguém quis sair, até que ela nos convenceu que, a partir das sete horas, o monstro do lago ficava lá para comer criancinhas. É engraçado! Que depois mais tarde. Eu tinha dezoito já, fui tomar banho lá e não encontrei nenhum monstro do lago, já tinha passado das sete). Quanto ao inefável, acho que não dormi a noite, pensando nessa palavra, pensei procurar ela no dicionário. Mudei rapidamente de ideia. Uma palavra tão bonita não deveria estar nos dicionários, já que é feia para os adultos – porque grande parte deles não têm imaginação, - não será feia pra mim.  Quando se tem uma fôrma de bolo, a gente pode preencher com recheio que quiser, minha madrinha vivia falando isso. No vazio, sempre aparece o novo, é só não ter medo do erro. Nessa idade, a gente aprende algumas coisas. As perguntas nunca são inteiramente respondidas pelos homens grandes.


   4

Com dezesseis anos, li um livro de Bruna Landim, “Do verbo ser irregular”, que explicava o termo “Tagarela”.  A autora citava um trecho de Dostoievski ( esses malditos russos!) , do conto “O subsolo”, que trazia um narrador que dissertava sobre todos nós com teor negativo: “Não passo pois de um tagarela, de um tagarela inofensivo, de um impertinente como todos nós. Mas que fazer senhores, se o destino de todo homem inteligente é tagarelar, isto é, derramar água numa peneira”. 
Bruna Landim disse que, uma vez, percebeu a diferença entre gostar de um cara e não gostar. Gostava de um rapazinho, quando sentia vontade de conversar; não gostava do cara, quando sentia repentinamente o mutismo no seu coração. Ficava absolutamente fria, não emitia sequer um espirro.  Desse jeito, entendeu tudo que tinha que entender sobre linguagem, sendo tagarela quando criança e, absolutamente, muda e séria com alguns rapazes na juventude. Eu cito um trecho do romance dela: “A tagarelice é o uso da forma. O papeador sempre diz experiências em suas histórias, mesmo que elas sejam mentiras. Muitas vezes, o papeador é confudido com o tagarela. Mas quem não consegue notar a diferença disso, não consegue  aproveitar a graça da poesia cotidiana. Existem tagarelas que não pronunciam sequer um espirro de resfriado”.
Eu entendi tudo, lendo essa definição. Desde criança, eu era uma poetisa, a tagarelice escondia o mundo no meu coração. Era minha forma primitiva de lidar com a linguagem. Ser tagarela era uma maneira de lidar com o som, espontaneamente lidava com lado lúdico das palavras, não contava experiências, porque elas sempre nasciam  com uma aparência surrealista. Coisas de crianças! Se a gente continuasse com essa cabeça, com tanto despudor, o Picasso ficaria de cabeça em pé. 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Sedução


Dois olhos negros olham duas mãozinhas trêmulas. Nenhum dos dois recorda como começa um papo. Eu podia citar Spinoza, Engel e Hegel, posso até falar dos meus últimos trabalhos como pianista, será que eu chamo atenção dela? A mocinha não abre a boca, o que será que está passando na cabeça dela? Podia tentar adivinhar o pensamento? É! Assim, ela vai pensar que eu sou cara certo pra ela...
- a gente vai tomar cerveja? – disse ela
- sim, alguma preferência?
- pra mim tanto faz
Ela está tão bonita. O que será que ela quer comigo? Poxa!
- E então... e as suas canções?
- pois é, preciso mostrar pra você
Ela começa o papo e fica em silêncio. Esses olhos que olham trigueiros para a mesa, o chão e o céu. O que eles esperam do mundo? Queria tanto essa boca! O que será que ela está falando? Deve ser algum enigma, estou um pouco tonto com ela aqui. Essa menina pode falar palavrões terríveis na hora da cama, mas é apaziguado quando saem dessa voz doce. De novo. Ela ficou em silêncio. Vou ver se consigo adivinhá-la.
- Você tem, como chama mesmo?, acho que é complexo de alguma coisa, sabe?
- não sei. Do que você tá falando?
- Poxa, tem um livro, o Freud fala disso, é, como é o nome mesmo?
- complexo de Édipo
- Isso. Você tem Complexo de Édipo? Por isso, esse receio em assumir compromissos longos, os homens te assustam um pouco
Ela apenas balança a cabeça concordando.
- Tá bom! Tá bom! Vou parar de ler os seus pensamentos



Ler os meus pensamentos. Cada coisa! Será que esse cara não vai me levar pra algum lugar? A gente vai ficar aqui jogando conversa fora. Aí que vontade de não fazer nada!
- adivinhei o que você tava pensando
- uhum
Nunca vou entender. Caramba! Será que isso é coisa só de homens? Será que é só insegurança do primeiro encontro? Por que ele quer desvendar o mistério que existe dentro de mim? Não existe nada além. Só existe isso. Será que não é um misticismo que jogam nas mulheres, uma espécie de invenção dos mitos na sociedade. Eu não quero um homem que adivinhe os meus pensamentos, quero alguém que é tão banal quanto eu. No final das contas, o que existe é só uma pessoa, não quero que me transformem em musa. Elas (as musas) falam em enigmas, eu falo português, trazem o passado sedutor e atraem os viajantes com as suas vozes. Eu gosto mais de ouvir do que falar. Só quero mesmo que ele me leve pra cama e a gente namore bastante, afinal, é um modo de escapar do tédio que é morar nessa cidade. Que vontade de falar pra ele que a Esfinge é um mito, na frente dele só existe apenas uma mulher. Lá vai ele abrindo a boca.

sábado, 29 de setembro de 2012

Domingo em família


Tchebutykin

É bem possível... O relógio da mamãe é o relógio da mamãe. Aliás, talvez eu não o tenha quebrado de verdade, mas sim aparentemente. Pode ser até que... Nós mesmos só existamos aparentemente e que, na realidade, nada sejamos. Nada sei e ninguém sabe nada. [...] Que há comigo para que me olhem assim? Natacha tem um arranjozinho com Protopopov e ninguém vê... Estão aqui e nada veem...E, enquanto isso, Natacha tem um arranjozinho com Protopopov...

(As três Irmãs, de Tchekhov)

Paredes brancas. No canto da sala, uma cadeira de balanço vazia. Um homem sério atravessa a sala, observa Carlos e Maria sentados no sofá vermelho, rindo descuidadamente sobre assuntos banais. Toninho entra pela porta da frente e grita no ouvido de Carlos:
- Eh! Corinthias é campeão da libertadores!! É campeão invicto!
Maria sorri. Carlos se irrita e inicia a discussão entre os dois homens da sala. O primeiro falando sobre as características que induzem a acreditar que a libertadores foi paga pela Diretoria do time corinthiano, afinal esse time está dentro da máfia futebolística; o segundo defendendo categoricamente o valor político e libertário do timão. O homem sério não é afetado pela conversa, senta na cadeira de balanço.
Acima deles, um relógio ditando o horário. Daqui a pouco, começa o horário para o início das pegadinhas do Faustão. As crianças correm em círculo, muitos gritos misturados, um pequeno coro contra a torcida do timão também é formado, logo em seguida, acontece a reação, outro coro faz a apologia do campeão da Libertadores: “aqui tem um bando de loko!”. A confusão é armada, alguns afirmam que o único time que não pode marcar impedimentos é o Corinthians, o tiozinho grita: “tá bíblia, não existe impedimento pro Corinthias”. E o relógio pendurado na sala dita as horas. O homem sério não escuta as vozes da multidão, instaura a invenção do homem burguês, preso na sua personalidade e inventor da singularidade do seu pensamento próprio, independente da massa. Ele é um homem, o relógio não sente pena de homens, não sentirá pena de apenas um homem.
Maria foge da confusão e caminha em direção a cozinha, as mulheres da família preparam a feijoada de domingo. Os homens e algumas mulheres entendidas desses assuntos futebolísticos permanecem com a discussão, nunca acabada e interminável, sobre as maravilhas do Timão e os predicados sociais que a seita anti-corinthiana denota sobre os torcedores. No futebol, o melodrama é lei, tudo é motivo para criar vilões, loucos e mocinhos.  O homem sério grita. Ninguém escuta. As pessoas, que entram aos poucos na sala, estão preocupadas com o debate entre as prerrogativas futebolísticas, não existe verdade no futebol, existem paixões. Torcedores parecem críticos literários, a briga entre os pareceres da literatura clássica não é uma questão racional, tudo passa pelo gosto, é o embate técnico de paixões desenfreadas postas em campo de batalha. São heróis brigando por heróis. Ninguém quer ouvir um homem sério, todos querem ser ouvidos ao mesmo tempo.
O homem sério fica mais sério. A multidão fica ainda mais fervorosa. Toninho pega o relógio na parede e discursa apaixonadamente sobre as qualidades de ser um torcedor de coração, sem corinthias ele preferiria morrer a estar vivo. Os torcedores apoiam com urras, algumas vaias também são escutadas. O homem sério emudece, ficando cada vez mais sem palavras. Toninho e Carlos brigam para ter a posse do relógio, nenhum dos dois consegue, o relógio cai ao chão. Só a voz do homem sério ecoa na sala:
- em migalhas! (ele chora)
Maria e Anita, que preparavam a feijoada, entram na sala e nota o homem sério em prantos calorosos.
- o relógio da mamãe quebrou – diz Anita
- culpa é desses fanáticos!
Maria apanha as migalhas do relógio, Anita tenta acalmar os ânimos das pessoas presentes na sala de estar. As crianças correm em volta do homem sério, inicia timidamente a discussão sobre futebol, Anita ordena que os homens acalmem os ânimos. O homem sério não é ouvido, recolhe as migalhas e sobe para o quarto. Não existe mais relógio que dita a regra para homens que sabem o que querem quando enfrentam o mundo. 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Um homem sem sobrenome


Olhar de seriedade. Às cinco e meia da tarde... Ele olha, ela não tem certeza. Eu como os restos de amendoim sobre a mesa, nenhuma leitura me fez ter ideia correta de uma possível felicidade nesse mundo (quem sabe ela existe em outros planetas?). Aí! – respiro fundo – como seria bom ter um amozinho pra acordar. Cinco e trinta um. O sol perde a cor; a sombra engrandece timidamente. O olhar de seriedade some, o casal na minha frente se entrega ao um beijo profundo. Paro de observá-los.
Meu olhar de vazio enxerga pouco. A fumaça do homem bigodudo inebria o ar, me recordo de uma definição de felicidade em um conto que eu li. Certamente, era de um amigo carioca. Ao fundo, uma música bem sugestiva: “rompi tratados, traí os ritos/ quebrei a lança/ lancei no espaço/ um grito, um desabafo” [Sangue Latino. Ney Matogrosso] . O meu vazio encontra um pouco de música para preencher, a vida sem música não tem a menor graça. Podem faltar pintores, peças de teatro, livros e poesias, mas a música! Não. 
Um homem se aproxima, eu cumprimento. Ele me pergunta se eu tenho fogo, acendo o cigarro dele com um isqueiro. Nós começamos a papear, eu não falo muito, deixo que o homem sem sobrenome faça o seu discurso.  O homem é professor de história, fala um pouco da época de 1964, outro pouco da traição de Lula, outro pouco nas mortes que viu quando os seus tios, militantes do PT, morreram para construir o partido que hoje está no poder. Um rapaz de dezoito anos se aproxima e diz:
- “agora, com gente jovem no PT, as coisas vão mudar. Eu vou ajudar a fazer um novo PT”.
-  “ Cala a boca! Lave essa boca pra falar no PT, você não sabe o que significa o PT, você não sabe o que é ver um amigo seu levar um tiro por causa desse maldito partido. Você não sabe nada”
- “ mas...”
- “ O PT me traiu, traiu os seus mortos quando subiu ao poder. Você não sabe nada.”
- “ dá pra mudar...”
- “ Cala boca! Lave essa boca pra falar desse partido, os nossos mortos estão sepultados pra história”
- “eu...”
-“ vai tomar no cú!, sai daqui!”
O rapaz saiu nervoso, batendo o pé nas cadeiras da frente. O homem jogou um copo plástico perto da cabeça dele; então o outro mais jovem, também nervoso, reagiu: “seu velho... vá pra puta que pariu! ”. O homem sem sobrenome olhou pra mim, algumas lágrimas adornavam os cílios e perguntou:
- “ você tem mais fogo?”
- “tenho”
Acendi. Ele tragou e saiu cambaleando até o banheiro. Eu não tinha o que falar; o que eu poderia falar? Fiquei silenciosa. O meu silêncio é trevas escondidas que desconheço, não sei exatamente o que pode resultar nesses demônios que não gostamos de cutucar, acostumam-se no escuro e sonham com a claridade mais fresca, serão violentos quando o sol iluminar os olhos acostumados com a sombra. O silêncio virou, a pouquíssimos segundos atrás, o meu melhor amigo.  

II
Depois, a noite ganhou corpo. As pessoas que se acostumaram viver nela, foram encontrando as posições nesse espaço, estavam preparadas para o encontro. Eu, acostumada com o não, me perguntei qual era a hora do sim? Uma moça sentou ao lado da minha mesa e falou:
- “ você sempre vem aqui”
- “sempre”
-“ fica aí olhando, está esperando alguém”
- “não, estou olhando o tempo”
-“ tá um calorzinho bom, né! Você não é daqui né!”
- “ sou sim”
- “ mas e esse sutaque?”
-“ é inventado. Me conte, você está com o seu namorado?”
- “ estou, ele tá no banheiro. Era um rapaz que tava conversando com você, pediu fogo e tudo, sabe?”
- “ Ah sei!..”
O homem sem sobrenome voltou com óculos escuros, começou a brigar com a moça. Ela pediu desculpas e também saiu nervosa. Sete e vinte e cinco. E hoje, já vi duas brigas com esse mesmo homem. Um olhar doce fita meus olhos, não respondo, ofereço outro cigarro.
- “acho que acabamos esse namoro, menina fresca! Você é bem calada. É melhor, quem fala demais, acaba falando besteira. Sabe como você consegue respeito, sabendo pouco e sendo burro. Mediano o suficiente para não se destacar em público! Pessoas originais demais é sempre um peso. Um peso pra sociedade. Um peso pros apáticos. Um peso pra ela própria. Eu sei que sou um peso, minhas palavras são rancorosas. “Todo poema tem os seus lobos”. Essa menina que eu tava comendo, não ia suportar ficar comigo mais um dia, é até melhor pra ela. O sonho dela é ser digna. Ela ainda não descobriu que a dignidade é a maior ilusão da sociedade, é um conto de fantasia, o demônio sempre pega na nossa mão”
- “você tá precisando de alguma coisa?” – eu fiz uma pergunta idiota, ele não estava precisando de nada. Era alguém querendo falar.
- “ eu sou um merda, você é um merda porque não fala o que sente e esses merdas controlam a nossa sociedade, porque merdas como você não quer abrir a boca. Quer ficar aí, calado, respirando a podridão dos outros”
Onze horas. Nós engolimos um pouco de saliva, eu ia dormir culpada e perdida. Se não tivesse uma insônia e uma vontade iminente de...Sei lá o quê. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Divagando com óculos escuros muito estiloso na volta pra casa


A
Então... Pausei de novo. Larguei as minhas responsabilidades para atravessar São Paulo por causa de outro estranho que conheci à toa. Ar seco. Muito quente. Podia chuver, né?
- oi, cê podia me dá algo pra mim comer? Qualquer coisa serve?
-num tenho não, só tenho aqui dinheiro pra passagem
Pra variar, a multidão de homens e mulheres bem vestidos caminhando por aqui, trombando-se com outros, também estressados. Tem coisa que nunca muda, por exemplo, essa Avenida. Continua a mesma, porém, silenciosamente, degradada.

B
Mas, eu? Eu? Claro, eu sou paulistana patriótica. Sou tão paulistana quanto o esgoto do Tietê, porque essa cidade é feito por homens inocentes e limpos, tão cheirosinhos, que se esquecem de limpar a bunda quando saem de casa. Abandonam-se ao odor de bosta, pois acostumaram-se a sujeira patriótica.  A ordem é essa: amai-vos e fedei-vos, juntos irmãos! O progresso é uma coisa emocionante (quase apoteótica!): câmaras invisíveis da última geração espalhadas pela cidade com uma sensação de insegurança rodando o ar (Ou será que é o cheiro do rio Tietê?).

C
Eu prefiro dormir, mas eu acordo. Abro os dois olhos e insisto em ficar sã.
- oi
- sim
- você tem dois minutos pra salvar o mundo? – diz o ativista do Greenpeace
- não tenho não
Engulo a saliva. O sol penetra meus olhos. Ando. Eu vou comer um miojo que não vai matar a minha fome hoje à tarde. Será que eu pego esse ônibus ou outro?

D
Do nada, esperando o tempo ficar meu amigo e chegar logo em casa. Pensei algo insignificante: puta, faz 220 anos que aconteceu a Revolução Francesa! Quantas vezes o capitalismo revolucionou de lá pra cá? Eu sou fruto de tantas memórias de porcarias e violência. Mesmo não sendo francesa. Também nem precisa, meu Brasil do doril e anil, tem nome de remédio e não tem a cura do câncer nem da AIDS. Brasil, meu Brasil, por que você ainda gosta de fazer crianças se faz tempo que a miséria toma no seu rabo e diz que aqui não tem mais espaço pra mais homens doentes?
Meu Brasil! – o seu lema é: “ A Merda e Os Fudidos”. 

E
Mas o Brasil é o país do futuro. O Itaquerão é o centro do universo em 2014. Esse país ainda vai pagar a conta da crise econômica mundial. Sim! Os fudidos vão doar o sangue, os fudidinhos e o coração para alimentar a economia internacional, a merda vai adubar o projeto capitalista.  O Brasil é o super-homem!

F
Quem diria? Eu, em plena juventude, assistiria de perto uma mudança da nova ordem mundial. O gigante vai morrer. Está morrendo.

G
Cheguei. O tempo passado é um agora cheio de séculos. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O homem do Bar Pescador


Primeira parte
Uma turma de amigos, na faixa etária entre 18 a 20 anos, alguns risos e alguns sonhos, celebrando as existências de ruínas que tiveram até agora. A vida é uma piada. Uma música da moda ao fundo: “eu quero tchu e tcha!”.  E uma certeza exata que pra ser feliz, só basta de pouco.
Um músico se levanta e diz:
- “Porra, O Celso Russomano está tão feliz, repararam o sorriso no rosto dele quando ele fala que o Maluf não é problema dele. O Russomano diz: pergunta pro Haddad sobre o Maluf, isso é problema dele agora. O Maluf é a batata quente que ninguém quer segurar”.
Outra mocinha fala alto, blusa vermelha e óculos escuros (uma patricinha!):
- “Apesar dos pesares, ainda prefiro o capitalismo doce que a política do PT inventou. O Serra já era, gente”.
A Má reafirma:
-“Ainda prefiro o PT, o Serra é muito ruim”
A turma falava desses assuntos banais enquanto olhava uma notícia de Jornal sobre a declaração do Serra do bilhete mensaleiro de Haddad. O menino cabeludinho, chamado carinhosamente pelas três meninas de “Kazinho” ou “Trastinho”, finalmente pergunta para todas enquanto pula em cima do pescoço de Roxinho: “Pra onde a gente vai?”
- “Porra, Vamo pra Cuba a pé!” (diz Mari, aquela patricinha de blusa vermelha)
- “Se a gente continuar assim, andando desse jeito, é capaz mesmo da gente ultrapassar fronteiras”. (Má ri, concordando com Mari, as duas andam abraçadas pela calçada – sendo que tinham acabado de virar amigas de infância).


Segunda parte
Roxinho começa a cantarolar uma canção na mesa. Kazinho começa a batucar na mesa. Má também acompanha a cantoria, Mari fica batucando e puxa a dançoria. Todos acompanham o ritmo da música com o corpo, ficam fazendo isso por uns tempos. O Garçom se aproxima e pergunta:
- “ eu quero ver a carteira de identidade de vocês”
Todos mostram. Má não consegue achar algum documento com foto na bolsa, mostra todos os cartões de crédito e etc, até conseguir achar algum, finalmente compram as bebidas.
- “ é o que dá a gente ter carinha de jovenzinhos. Né não!.. Garçom”. 
O garçom responde com a cabeça afirmativamente. 
- “vamos pedir uma porção de batata fritas”
- “alguma preferência de cerveja?”
- “pra mim qualquer uma”
- “pra mim também. Será que é mais barata que no outro bar? GARÇOM, quanto que é a cerveja aqui?”
- “ seis reais”.
 A turma olha com o rosto de desconfortamento. Mas dão risada logo em seguida.
- “ eu posso só pagar uma”
- “a Má já pagou a primeira cerveja do último bar”
- “ é verdade! Deixa que a Priscila quando chegar, pague todas as rodadas...”
- “ é isso aí, ela que chega atrasada, ela que paga!”
- “ Então, gente, esse papo está com a nota 9,18!”
Gargalham. O último bar que eles estavam era lá embaixo da R. Augusta, chamado Pescador. Era um lugar mais ou menos, mesmo assim, a cerveja era muito cara, só puderam beber uma garrafa. 
A Má virou o copo, olhou e rindo disse:
-“nunca mais vou esquecer aquele cara, vocês ouviram o que ele falou quando eu perguntei de onde ele era, (as mãos em cima da mesa, os olhos fixos no copo, Má reproduzia o jeito do homem misterioso do Bar Pescador): ‘eu vim dos seus pés’”.
Kazinho encheu um copo de cerveja e colocou no meio da mesa:
-“esse é da Priscila, ninguém mexe”
- “Poxa trastinho, que maldade!” Todos riam. Mari cruzou as pernas lentamente, olhou o rosto de Kazinho e Má, disse:
- “Então, eu quero saber o nome da mãe de vocês, um por um:
 1) Regina -  Kazinho disse
2) Maria – Má disse
3) Neide – Kazinho outra vez, mas com uma voz de mulherzinha
4) Messias (Roxinho imitava Mari nessa cena)
MESSIAS!”
Roxinho sentou com as pernas cruzadas na cadeira. Deu risada e bebeu mais um pouco de cerveja. Mari arregalou os olhos, pegou as mãos de Roxinho e perguntou:
- “sua mãe se chama Messias mesmo. Nossa! Não posso falar da bíblia aqui. Olha gata: eu rezei tanto pra Deus pra aparecer alguma coisa boa e apareceu você, a filha de Messias”.
Mari deu risada, sentou normalmente e colocou mais cerveja no copo. Roxinho disse:
- “poxa, o cara te pegou pra Cristo...”
- “pois é, pegou mesmo. Cara doido! Ele não parecia estar bêbado só, parecia ser outra coisa, o cara conversava com Deus, você viu Má, ele dizendo que preferia morrer com essa loucura, porque ninguém podia tirar dele a experiência de ter visto Nossa Senhora”.
- “não parecia ser só bebida mesmo não”
- “não era” – respondeu Kazinho. Roxinho o interrompeu com olhar de seriedade;
-“Sabe o que o cara parecia. Tipo um daqueles caras cheios da grana, muito rico, que perderam tudo, teve que dividir a herança com mais quatro ou cinco pessoas. Só ficando com o terreno dele e os pés de cajueiro, na maior decadência”.
- “tipo isso mesmo. Meu, acho que ele era budista. Ele tava muito louco”
-“ se a gente deixasse, ele ia beber mais cerveja nas nossas costas, viram a interpretação que ele tinha feito, dizendo que tinha esquecido dinheiro em casa”
-“ não esqueça a perninha cruzando” – Kazinho puxando a piada. Todo mundo rindo junto.
- “ e a mãozinha ao vento, lembra Mari..”
- “lembro Má, ele falando que não esperava mais nada da vida, já tinha perdido tudo. Aí Deus falou que ia levar a mãe dele embora, (imitando o homem do Bar Pescador, a mão direita em cima das orelhas e mexendo os dedos): ‘quer levar a minha mãe embora, então leve... Adeussss!’ Não dá pra enfrentar a morte. Ela sempre ganha.”



Terceira parte
O homem do Bar Pescador é careca, rebola a bunda enquanto anda, usa camisa branca, uma calça cinza toda mixada. Um restinho de cabelos brancos na barba e atrás das orelhas, caminha por entre os bares esperando que alguém o escute, procurando compreensão. Mas todos fogem dele.
Segurando a mão da filha de messias, ele olha nos olhos da mocinha, bem arregalados. Depois de ter aberto o coração para aqueles jovenzinhos, espera o que deles? Segura nas mãos da mocinha.
A mocinha diz: “Tá tudo bem!?”
O homem do Bar Pescador responde: “Eu preciso ir ao banheiro. Gente, eu vou, mas esperam, porque essa conversa está com a nota 9,18”  
A turma de amigos sai de fininho, correndo na calçada já misturada com as cores noturnas. Eles gritam: “vamo ver gente bonita, metida e descolada!”.
A patricinha diz: “Cara doido! E ele: ‘sou contra o homossexualismo. Não, Não, não é contra, essa palavra é muito forte. Mas eu não dou a bunda pra ninguém, um monte de gente quer comer ela, mas não dou, não dou!... Eu só gosto de comer a bunda dos outros’”.
Roxinho diz: “ eu gosto de ver gente assim, o povo do teatro me levava pra conversar com esse pessoal”
Kazinho: “ é capaz da Mari fazer um conto sobre isso, do jeito que eu conheço essa menina”
Mari: “ Ei trastinho! Vamo pra outro bar, o Kazinho paga tudo dessa vez!”  


domingo, 12 de agosto de 2012

O Silêncio do pianista



“Os médicos estão fazendo a autópsia
Dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
E um estômago cheio de poesia...
[...]
Única fortuna, os seus dentes de ouro
Não servirão de lastro financeiro
E cobertos de terra perderão o brilho
Enquanto as amadas dançarão um samba
Bravo, violento, sobre a tumba deles.
[Necrológio dos desiludidos do amor, Carlos Drummond de Andrade]

I

Eu me perdi aos vinte e dois anos. Minha melhor amiga tinha ido embora para China – nunca quis saber onde ela ficou – e, desde então, eu fui me afastando aos poucos das pessoas; no primeiro momento foi a minha família no Brasil; no segundo, o meu trabalho. As pessoas que tinham alguma consideração por mim e estavam por perto, achavam que eu tinha algum talento para música e passei a acreditar nisso.  Ao notar a minha solidão, eu também fui perdendo a vontade e a competência de criar melodias novas.
Na realidade, eu era um sortudo. Meus amigos gostavam muito de mim e a minha música era prazerosa, porque era acima de tudo uma brincadeira. Sonhava ser um Chopin, algo comparável aos grandes compositores alemães e, quanto mais, eu acreditava em mim, criava menos ou fazia peças musicais detestáveis. Então... Ficava contaminado pela preguiça, a barba ficara enorme, o cabelo também. Já não criava.
Naquela tarde, eu tinha voltado do supermercado e comprado uma garrafa de uísque. Acho que estava deprimido. Bela combinação! Triste e sozinho (já poderia ser considerado um personagem ridículo da literatura romântica). Um pianista de vinte e dois anos sem criatividade, sem amigos, sem amor, realmente muito pálido, contaminado pela tristeza e sozinho. Precisava tomar um banho.
O piano olhava-me elegantemente. A arrogância desse objeto cobria a sala imensa de olhares impiedosos e postura indiferente. Será que o poeta morreu por causa da arrogância de seus versos? Eu estou perdido, finalmente conclui desolado.

II

Eu queria falar de arrogância. Dizem que o instrumento é a extensão do corpo de um músico; se o piano é tão soberbo e eu sou tão elegante; a música nos fizera arrogante. O meu talento e a beleza eterna das melodias fizeram com que eu tivesse esquecido as angústias humanas, parecendo que eu era mais do que os homens normais... (e eu era!). Quando eu estava no palco, eu era como um semideus e Zeus era o meu piano, éramos indestrutíveis. Possivelmente, essa sensação estava consumindo com o pouco da minha humanidade e fazendo com que eu acreditasse na impossibilidade de viver outra vez infeliz.
A Maria casou com meu melhor amigo, um moço realmente distinto chamado João, abandonou as nossas confidências noturnas. Ao sentir no peito o peso da solidão, acordou a impressão da infelicidade e fiquei com vontade de chorar, pois agora era eu e o meu piano.

Na realidade, era eu mesmo. O piano era a extensão da minha tristeza. Tinha um tempo que eu achava que só bastava a mim. Mesmo quando aconteceram os grandes desastres no Japão e consegui sobreviver sem piano ou partituras novas. Sobrando apenas o meu corpo, cheguei à conclusão que eu era mais um sobrevivente. A solidão tinha salvado a minha vida. Depois de dez anos ou vinte, (não recordo direito), o reencontro com esse piano elegante, em frente dos meus olhos hoje, fora algo quase místico, me senti tão inteiro e pleno. E quase esqueci a necessidade de estar ao lado de alguém. Essa sensação divina de criar música iludia a minha solidão.
Deslumbrado com essa realização artística, não percebi a presença de Maria. Arrumando silenciosamente as minhas meias, ouvindo as melodias interrompidas, acordando os meus sonos conturbados e, delicadamente, preparando o meu café e o meu pão pela manhã. Esqueci que ela existia, não sei nem quando o João e a Maria começaram a se envolver.

III
Era uma noite qualquer de aplausos e sucesso. Foi quando percebi. Ela e ele, com as mãos dadas, namorando e gargalhando. Aproximei deles e pedi um pouco de água. Fiquei um tanto surpreso, precisava de algo para molhar o meu coração, o uísque afogaria as minhas mágoas depois, mas não naquele momento. Queria demonstrar tranquilidade, queria parecer o mesmo de antes. Soberbo, alegre e conversador.
Mas, nem cumprimentar, eu consegui e fiquei olhando, não me recordo por quanto tempo. Ela que se aproximou de mim exageradamente feliz, fiquei enojado com tanta alegria:

- música linda! – para o João – né, meu amor? Pedro não toca canções lindas?
- também, ele não larga o piano, - dando tapinhas nas costas do pianista, - que até esquece a solidão
Balancei a cabeça afirmando.
- Vocês estão juntos? – disse fingindo tranquilidade
- ele me pediu em casamento na sua frente, não lembra? – Maria sorria, - você estava tentando achar a tal melodia perfeita e eu arrumava as suas meias. Foi quando o João entrou, pediu licença, falou que me amava e queria ficar comigo para sempre. Não lembra, Pedro? O João até pediu permissão pra você
- e você disse que podia – João beijou a boca de Maria. Eu sorri.
Foi então que fiz para mim as perguntas de agora. Maria casou em um domingo, depois foi embora para China com João. Quanto tempo eu fiquei distraído sem perceber a presença deles? Não tinha recordado o evento do pedido de casamento, se eu tivesse percebido será que eu reagiria de outro modo? Ah! O piano!... Antes você me bastava, agora não tem ninguém arrumando as minhas meias em silêncio. Maria silenciava a minha ausência, eu cobria o ambiente com música. Em algum momento, vivendo isso, tivemos alguma troca de palavras? A falta dela é tão mais presente que o silêncio da arrumação dos armários. Éramos a solidão no estado plural, a alegria chegou quando as palavras surgiram. João ganhou ela como esposa e eu não notei o som do riso de Maria, ela foi embora.

IV

Ontem, eu comprei querosene, enchi duas latas grandes desse líquido. Em frente ao piano, pensei nessas questões que nunca tinha duvidado: o meu sucesso solitário de pianista, Maria, João e a minha arrogância musical... Esse desastre era um tanto mais devastador que o tsunami. A extensão do meu corpo estava, diante de mim, intacta e bela. Eu, um velho com saudades.
Com certa dificuldade, fui despejando o líquido nas cordas do piano. Devagarinho, aquele instrumento se desmanchava, desafinava e perdia o brilho. As teclas também iam ficando impossível de tocá-las. Estava cometendo o suicídio que jamais teria coragem de fazer, despejava mais querosene. O piano também morria devagar como eu.
Sempre gostei de música. Mas a música parou quando a Maria levou o seu silêncio dessa casa. O piano derreteu inteiro na minha frente, não chorei, não ri, não fiz nada. Só sentei  no sofá e fiquei lá. Assistindo. 

Liberdade


São Paulo, 2 de Março de 2009
Sexta-feira. Às 12h.

Eu estava na multidão, descendo as escadas rolantes. Liberdade (eu nasci aqui). E aí? Pra onde eu vou? Amanhã, a minha prima vai se casar, preciso comprar um vestido novo. Quero ir de preto. Descendo as escadas rolantes, pensei: como eu não sou livre. A Liberdade é perigosa ou incoerente? Livres são os marginais? Livres são aqueles que controlam o Estado? Livres são quem têm fome?

Eu estava na rua, ao sol de meio dia, eu caminhava. 
Quero ir de preto. Um menino, mais novo, caminhava de encontro a minha direção, bonezinho pra trás, pirulito na boca, caminhando em bando e, ao lado dele, uma menina cheia de marra e dois molequinhos. Eles caminhavam em direção a patricinha, menina mimada de Santana, não disseram nada, olharam nos meus olhos e disseram:
- passe o dinheiro ou qualquer coisa que tiver
- não tenho nada – respondi tranquila – dou o meu celular
- passa! Passa!
Dei o meu celular, eles falaram que iam me matar. Eu caminhei até a banca de jornal, tão tranquila, só chorei lá. Acho que de vergonha; acho que de piedade; acho que de medo. Eita! Liberdade estranha é essa, cresci cheia de fantasmas e cheia de medos.
Eu estava na Liberdade, onde eu vivi a minha infância. Pensei: “eu tenho uma vida branca à minha espera”, mas como eu não sou livre, como a minha consciência é cheia de medos, como eu sou onipotente, desprotegida, cheia de bons valores e comportamento de família classe média. Sou uma boa menina, como eu sou presa e envergonhada, uma escrava que abana o rabinho pros mais velhos. Eu estava na Liberdade, atravessei a catraca do metrô, usando os meus óculos escuros, fingindo que enxergava o mundo e que entendia o mundo atual. Fingia que os meus cabelos longos ao vento livre, me davam liberdade. Mas é tudo mentira, é tudo teatro. É tudo inventado.   

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Anotações do relógio parado: os devaneios de um corpo qualquer


Inquietude ou ânsia? Marta não sabia responder o que ela sentia no fundo do coração. Olhava-se, percebia o corpo e não conseguia enxergar a boca. Era uma ignorante, inclusive dela mesma, Marta só enxergava os braços, as mãos e a ponta do nariz, não tinha a mínima ideia de como ela era de corpo inteiro. Só se conhecia através do reflexo deturpado do espelho.
Marta tinha acabado de chegar em casa. Sentou-se na cadeira. Os pratos sujos chamavam-na insistentemente. A cor da parede era branca, na cozinha tinha uma mesa ao meio, dois quadros expressionistas decoravam o ambiente, o apartamento era muito grande para morar sozinha. Um pouco menos de um ano e um pouco mais de dois meses, Marta morava nesse lugar. Ela vestia preto, usava botas e respirava um ar de cansaço.
Repentinamente. (Porque é sempre repentinamente que as grandes coisas acontecem! Embora sejam muito banais...). Repentinamente, ela levanta-se, toma uma xícara de café e fuma o último cigarro do maço. Era o último cigarro da manhã, amargo e consolador, (Marta precisava comprar outro maço de cigarros, quando fosse ao supermercado). Ela levanta-se e vai em direção ao quarto, encara o relógio preto em cima da mobília, esse objeto fascina a sua imaginação, pega-o, voltando para cozinha.
A cozinha estava silenciosa. Marta, antiga atriz e atual recepcionista do consultório do Dr. Pedro, um dentista, não tinha reparado no silêncio quando chegou em casa. Ela sentiu vontade de chorar, uma angústia lhe apertava o peito. Olhou, finalmente, o relógio parado. Decidindo criar uma situação nova que propiciasse o fim do tédio da segunda-feira. Nesse joguinho, ela criou objetivos: 1º) observar o relógio parado; 2º) perceber o som no silêncio. Anotaria as experiências com relógio preto dentro de um caderninho marrom, rasgado e rabiscado.
Chorou, mas não sabia responder qual era o motivo da tristeza. Marta, vivendo essa situação inventada, pensou de repente que conseguia responder mais facilmente as perguntas profundas e filosóficas dos grandes pensadores modernos do que responder as perguntas práticas do mundo cotidiano e banal. A vida se repete. O que ela faria amanhã? E depois? Como seria se não conseguisse o dinheiro para pagar o aluguel? E depois? Quando ia comprar comida para encher a geladeira? E depois? Que horas ela ia tomar banho? E depois? E se fosse despejada do apartamento? E depois. O cotidiano saltava-lhe aos olhos. Marta precisava arranjar um emprego, lavar pratos e arrumar o guarda-roupa. As roupas estavam todas desorganizadas.
Quanto ao relógio parado, o gravador era sua única companhia. Marta registrava todos os seus depoimentos nele.
*8h15min: “Eu, Marta de Martini Santos, me dei o objetivo de observar o maior tempo que eu puder esse relógio quebrado. Os ponteiros estão imóveis.  – ela gravava a sua voz no gravador – Quero, nessa experiência, apreender a matéria do silêncio. Seria uma espécie de laboratório teatral? Algo até muito idealista. O silêncio é uma utopia? Vou anotar diariamente todas as minhas vivências com esse objeto inanimado
*8h17min: “Eu sentei nessa cadeira branca e comecei a observar esse relógio. Notei que ele estava quebrado, os ponteiros apontavam sempre para um mesmo horário: 7h55min50s; 7h55min50s; 7h55min50s. Parece que o tempo parou, não escuto nenhum barulho, talvez o ritmo do meu sangue. O relógio era preto, arredondado e morto. No meio do objeto, tinha uma palavra escrita em cinza, caixa alta, QUARTZ, embaixo do número doze, outra palavra, itálico, Yin’s, escrita em preto”.
Renato. Marta pronunciou esse nome mentalmente. Re-na-to. Era o nome do seu primeiro namorado, rapaz simpático, cabeludo e muito quieto. Os olhos eram grandes, a boca muito fina. O sonho de Renato era ser escritor. Tinha uma frase marcante na vida de Marta que ele sempre repetia, era sobre os livros detalhistas: “ninguém quer saber quantos grãos de trigo tem no saco, isso não é importante. A vida expressada! (quando ele falava isso, abria muito a boca, Renato ficava entusiasmado demais), o drama humano, não, não, não, o drama cotidiano da existência, é isso, as pessoas querem algo que vai além do drama cotidiano da existência, a arte ultrapassando a vida”.
*8h30min: “Drama humano?! Não, não, eu não saberia pensar sobre isso, não sei nem direito o que um relógio quebrado, um mero objeto inanimado, pode ter haver com o drama cotidiano da existência!...eeeeeh, se tiver? Acho que isso é uma grande loucura, olhar esse relógio não vai me fazer chegar onde eu quero...maaas, o que eu quero? O silêncio? O silêncio vai por acaso preencher o meu vazio? O silêncio, que é o vazio, pode preencher outros vazios?”
Toca o telefone: trim-trim-trim.
*8h31min: “atendo? Quem será que é a essa hora da manhã? Ninguém normal acorda às oito horas para ligar. Eu não vou atender. Estou muito ocupada com esse trabalho artístico. Vou me descobrir e perceber o meu corpo. Sim: o corpo. O corpo é a resposta! Meu corpo sabe mais de mim, guarda mais memórias e diz mais o que sinto do que eu mesmo”. 
Marta tira o telefone e deixa-o fora do gancho. Ninguém mais a incomoda. Só há o silêncio.
*8h42min: “Vou concentrar todas as minhas energias nesse relógio parado (fechando os olhos) Não! Quero enxergar esse momento que criei, senão eu vou perder ele para sempre. Na realidade, o relógio é parado, não existe movimento nele... Droga! Me perdi, eu tinha mais coisa para falar antes, mas esqueci....”
Tic-tac-tic-tac-tic-tac-tic-tac: esse é o barulho de outro relógio que existe na cozinha da Marta, ao lado do menor quadro de pintura expressionista. Marta não diz nada, só o percebe.
*8h45min: “isso é o relógio? Ah!! Me esqueci que tinha outros relógios na casa, mas, veja, que momento! É um relógio vivo gritando e um relógio quebrado, mudo. Tudo em contraste, disforme, como a minha vida. Os gregos definiam o movimento como tudo aquilo que transformasse a realidade, mesmo algo parado pode significar movimento, acaso atingir a transformação do real. Acho que eu estou me modificando, não sei o que isso significa...”
Tudo é transformação. O tempo sobrevoa nas costas de Marta, é inevitável, todos os dias ela está próximo da morte, envelhecendo e entristecendo. Ela não consegue tocar o silêncio, porque não sabe se isso também é uma invenção dos homens para atingir a felicidade. O silêncio pleno pode ser uma utopia. As mãos alisam a pele e os cabelos, caminham até o útero e Marta relembra o seu sexo.
*8h50min: “ter um útero é diferente, é mesmo muito diferente do que não ter...”
*8h51min: “porque a arte nos inferniza, porque quando você toma a decisão de ser artista, não escapa mais, porque eu tô com fome, porque eu preciso comprar anticoncepcional, porque eu preciso pagar o aluguel, porque não falo mais com os meus pais, porque não tenho dinheiro para pagar as contas de água e luz, porque Rodrigo transou comigo e não me ligou mais, porque nunca sei...”
Ela relembrou, repentinamente, as duas vezes que tentou largar o teatro. Sentiu como um objeto perdido, mas nunca achado. Não soube se exprimir para ela mesma. Parou, respirou e quase gritou. Sufocando o grito, sussurrou.
8h55min: “e abandonei, mas não resisti por muito tempo, eu acabei voltando pro teatro dois meses depois. O que há nessa coisa que é tão difícil de sair e tão fácil de desamar? Atuar... No começo é lindo, depois fica uma merda. Um dia a gente aprende que o prazer é sempre complicado, exige paciência e personalidade, um dia a gente aprende que o amor é inundado de angústias, a gente aprende que o medo é natural, a gente aprende que a raiva é o sentimento que implica posicionamento. Acho que um dia a gente aprende”
Marta pensando, um relógio inanimado e outro tiquetaqueando. Na maioria das vezes, o ser humano perde a cabeça quando pensa demais e se esquece de viver o presente. Um Instante parecido com o silêncio, difícil de agarrar com as mãos, essa tal efemeridade do aqui e agora. O presente se vai, se perde.
*8h57min: “ por um momento não consegui perceber nenhum som, me esqueci do relógio e não senti nada com meu corpo. Droga! Me perdi de novo, esqueci completamente da coisa, de tudo, do que eu queria realmente...”
*8h58min: “...será que sabemos o que queremos realmente? Ah saco! Eu de novo me indagando e esquecendo da vivência... aaaaah vida!, o...”
*8h59min: “... instante se foi, indo, indo e eu nem peguei...”
*8h59min59s: “...ou...”
*9h: “...eu que fui?”