sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Deus e o otimismo

- um terremoto! Fica tranquilo, é Deus manifestando o seu poder.

Enquanto isso morria seu filho, seu comércio e ele perdia seus dois braços e um pouco da sua identidade por causa da fé que lhe escorria no seu rosto. Ele morreu nesse terremoto e perguntou a Deus:

- poxa Deus! Eu tava lá defendendo você, por que você tirou tudo isso de mim?

Deus, que era um menino pentelho, respondeu enquanto chupava um pirulito roubado de Jesus, o crucificado:

- pô moço! você é um careta, muito chato e quadradão, precisava dá uma sacudida também com esse terremoto!

Filipe Catto - Rima rica frase feita

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Algumas personagens inacabadas

Certas personagens não morrem. Algumas, quase inertes, só ficam guardadas quietas na gaveta apenas a espreita do melhor momento de explosão para um ato teatral mais propício ao escândalo de inquietudes acumuladas nas entranhas, quase estancadas com lâminas afiadas de angústia. Certas personagens inacabadas são mais explosivas e enlouquecidas para ganhar uma vida do que aquelas que já vivem literariamente.  

Essas personagens não sabem que vivem essa fase do espetáculo de uma não explosão das loucuras guardadas na garganta, tanta vida escondida, mas essa é a vida delas. Elas nem imaginam que vivem, mas estão lutando para viver. Gritam com o diretor, entram em conflitos entre si para conseguir um espaço e tentam a autoafirmação de suas existências. Ora, desconfiam do jogo pré-formulado de atos bem elaborados e coerentes, ora, desconfiam que, ao longo de tantas palavras e ações feitas no momento "aqui" e  "agora", suas histórias sejam construídas e desconstruídas por elas mesmas. Essas personagens inacabadas não desistem dos conflitos, acovardam-se quando percebem o imenso público e vivem a luta de não esquecer o que sentem. Por isso, jogam incoerentemente milhares de discursos revoltosos sobre o mundo e as coisas, querem admitir que suas existências sejam tão ou mais importantes do que os que ganharam a vida como Julieta e Romeu, vivos eternamente na literatura.

São personagens que estão no último mês de gestação, querem ver a luz do sol, querem sair da barriga e chorar a lâmina angustiante da água de amor maternal, da instituição falida da família cristã, dos sonhos roubados pelo Imperialismo norte-americano e da possibilidade de morrer a qualquer momento por um tiro na cabeça em pleno final de semana noturno. Elas querem a vida e querem brincar com a morte.  Querem constantemente a reinvenção de seus atos, querem revolucionar a peça, querem provocar a plateia e convidá-la para subir ao palco para brincar de fazer poesia. São personagens-bomba vão explodir a qualquer momento e matar milhares de pessoas que estão ao redor.

Certas personagens nunca, de fato, nós – escritores – conseguimos realmente se despedir. Mas elas já ganharam as suas pernas. Aí, nós ficamos preguiçosos, porque não queremos que elas fujam de nossas rotinas e de nossas canções, é inconsciente, esquecemos de escrever suas histórias, porque elas já exigem a escrita. Elas querem o verbo, querem estar verbalizadas em papéis brancos. Os escritores, depois de tantos conflitos, perdem a batalha por causa de tanta perseverança e persistência dessas personagens, captando as incoerências de seus discursos e dando asas para seus ódios preservados. Os sentimentos críticos e confusos das personagens inacabadas acumulam-se por muito tempo, mas atacam desprevenidamente e conquistam a verbalização de seus dramas para sempre.  Certas personagens são tão encantadoras que fazem praticamente parte de nossas vidas a ponto de sentir saudades. Sinto saudades...

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O Germe Social

O escritor é expelido como um germe no vulcão das misérias e desigualdades sociais de uma sociedade que ainda preza valores fúteis e consumistas. Um germe que parasita em diferentes bueiros sociais, quer vestido de ouro, quer vestido de papel.
Numa humanidade que ainda segrega campos de conhecimento (totalmente) conectados, terminando em discussões infrutíferas de verificar a importância entre matemática e estudos filosóficos. Nota-se ainda a insistência da fragmentação ao invés da procura pela unidade, pela incerteza social incomum, o trabalho coletivo. O escritor é um germe insignificante, irreconhecível e incomunicável (Infelizmente muitos morrerão incompreendidos!). A sensibilidade morreu com a educação e renasceu nas cinzas, alguns vermes, seres domesticáveis para punhetar diante de sites pornôs – nem saem mais de casas atrás de putas.
Cada geração – à mercê desse mecanismo político carnificizante – vai parir um escritor mais feroz que o outro. A inquietude dominará cada palavra ácida, cada som impuro, cada expressão explosiva e cada leitura tóxica. A experiência literária não vai transformar ninguém que não tiver abertura para essas questões sufocantes. Sem tristeza e angústia, ninguém será abalado pela seriedade dessa experiência. As palavras entrecruzam com as experiências vividas. Nobre leitor, és um estupendo escritor iminente! Às vezes, és ainda melhor do que este que escreve a ti. Entretanto, eu não sou nada sem essas palavras, você não é um leitor sem mim e, sem ter escrito esse texto antes, eu não teria a desculpa de conversar com você. Somos um só vivendo a experiência artística, depois dela não seremos mais os mesmos.
No final, a experiência literária gera sujeitos produtores  de outras experiências; às vezes geram na vida; às vezes geram na arte. Não há muitas utilidades práticas em nossas escolhas, mas é melhor que escolhemos as escolhas inúteis que melhor nos agradam. Assim, eu vendo a literatura como um presente grego (romano ou venenoso), que não serve para nada imediatamente, mas que mudará a sua visão de mundo a partir dessa leitura ou da próxima. Os germes sociais ainda dominarão o mundo!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

pequena poesia da tristeza

uiaiuiuiauiauiuai buábuábuá
                                      glup glip

euvoupralugarnenhumpralugaralgumlugarnenhum

césumiu! 


uiaiuiuiauiauiuai buábuábuá
                                      glup glip

sabedoria antiga

todos os estudos são inúteis diante da intangibilidade da vida

o amor é mais do que monografias e artigos
cultos

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

semibeijo

a pior coisa  é boca com boca
o espaço respirando os suspiros
os silêncios

excita mais do que mil beijos