não leva embora todo meu espírito
carrega minhas carnes por kilo
meu coração funciona no grito
grito de prisioneiro:
"Salve teu peito!"
salva a alma que lhe resta
mata tua bontade
destila todo teu ácido
nesses porcos de espíritos disfarçados
de velhas frágeis nos cultos espíritas
amargando o café,
mais amargo é o meu dia
engulo facas filosóficas
tomo enlatados econômicos
ainda morrerei de aglomerados
humanísticos
sugam os sucos dos meus fulcros
mastigam as células místicas
eu como capim teológicos
de falsas ideias paradísiacas
vou embora pro Caribe
Ou, talvez, pra Suíça
procurar os meus lucros
talvez eu realizo
sonhos bruscos
compro
um barco
um amor
masturbo
o meu suor
alivio
meu jack estripador
dosmesticado civilizado
ou então.... eu morro
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
domingo, 11 de setembro de 2011
A Leila Diniz, as coisas de atriz
Existem certos lugares comuns quando falam sobre a figura monumental de uma atriz. Leila Diniz que lia Pasquim; Leila Diniz que trepava pra caralho; Leila Diniz que gostava dos canalhas; Leila Diniz que não escondia o que sentia; Leila Diniz que não encena personas na vida, só cenicamente; Leila Diniz que morreu na idade épica, sendo jovem para sempre.
Qual é o mistério do mundo dionisíaco? A atriz enxerga toda a plateia nos olhos, não se consome de medo, não demonstra seu receio de enfrentar a fantasia de dramas que não existem na vida real, no entanto a mágica acaba. A vida retorna, ela é atriz, Leila Diniz que trepa pra caralho, mas comprando jornal, chocolate e frutas pela manhã. Caminhando para o tédio de uma reunião familiar em pleno domingo de sol, encenando uma menina meio comportada para não ter que explicar tudo, a família grande diz que ela não sabe o quer. Leila Diniz responde: “eu só quero é me divertir....”
A atriz, com raiva, nem perde seu tempo com papo cabeça, porque insistem em querer vê-la chorar só para demonstrar toda sua competência cênica no mundo real. A vontade que dá é em mandar todo mundo tomar no cú, mas calmamente responde: “ atriz faz os outros chorarem, se pra ser atriz bastasse simplesmente demonstrar as lágrimas como palhaço de circo, então teríamos centenas de Bibi Anderson e Cacilda Becker”. Eles riem, Leila Diniz olha com pena e desprezo e desiste do papo cabeça familiar, escolhe definitivamente a figura de uma burra e vadia que não sabe o quer. Pelo menos, atriz se diverte mais fazendo isso do que provocando pensamentos inteligentes.
Nota que as pessoas estão mais velhas, ela está mais jovem. As musas demoram séculos para nascerem, os olhos penetram a libido de alguns homens, ela desaparece como os canalhas e esquece como os vadios. Distraída, a atriz gosta de depreciar o seu trabalho para lembrar que não aprendeu nada útil sobre o combate da vida. Além das coisas importantes do gênero humano, o ser humano muda, o ser humano mente, o ser humano caga, come e transa, o ser humano é estranho e nem sempre ele é protegido por deus. Leila Diniz pensa que o mundo seria melhor se tratassem deus utilizando o pronome você e não vós. Ela conclui que, amadurecendo, se tornará melhor arteira, pois os despudores vão se apropriando de seu corpo. Aos poucos, a vida complica-se mais e mais e fica mais divertida.
seu amor é igual ressaca
Seu amor é igual ressaca
A água que cura
Dói
Na cabeça, no corpo
No rosto, nos olhos de casaca
Roxos
Dói
Amor, lembrar de sua barba
Que roçava minha pele de donzela,
Desleixada,
Meus seios pungentes
Saltando pra fora
Gemendo inteiros
Por você
Dói
Naufragando nas suas mãos
Sonho alucinada
Por mais um dia noturna
Tremendo circunvoluções
De beijos perdidos
Corações iludidos
Amar
É coisa de gente tola
Que gosta de sonhar com
Piruetas de fogo n’alma
Sua barba agora é minha
Nessa despedida nem me deixou
O que eu tinha
Minha sacanagem
Dói
Amanhã é outro dia
Arranjo outra barba
Outra folia
Não dói mais
Pensamentos
Se eu corro
O quarto explode
O caos consome
Meu furor
Voa o pensamento
Arrepios de momento
Sonhos de madrugada
Água ardente
Quente
Meu pijama
Minha cara de demente
Não engana ninguém
O evidente:
Ando pensando muito em você
Ultimamente
A invenção da musa
órfã de mãe
órfã de gatas
órfã de amigas
órfã de cadelas
eu tive que resignar-me
a mim e inventar uma
nova musa
Uma musa que colhe
dos belos musos
palavras e beijos
profundos
profanos segredos
e imundos
descobrimentos
desse corpo
órfã de gatas
órfã de amigas
órfã de cadelas
eu tive que resignar-me
a mim e inventar uma
nova musa
Uma musa que colhe
dos belos musos
palavras e beijos
profundos
profanos segredos
e imundos
descobrimentos
desse corpo
sábado, 10 de setembro de 2011
Bossa Nova e Rock n’ roll: Observações sobre evoluções desprecisas de uma história
ao meu amigo Monteiro que me ensinou
algo de rock
algo de futebol
um pouco de lamentação
algo de alma
Nada é tão precioso a ponto de ser eterno. As boas músicas efemerizam a nossa realidade e eternizam as nossas memórias; quando menina ouvia Toquinho, Elis e Vinicius mais do que bebia água. Aprendi a tocar violão, porque gostava de blues e imitar os acordes difíceis da bossa nova. Ouvia rock, mas não me cabia qual era o motivo, a chama subversiva não me contagiava. (Desde cedo, eu saquei que artista não tem que agradar, os melhores iam em direção contrária do sentido imposto por algum patriarca).
Mas houve uma mudança tão profunda em mim, conheci um moço gordo de olhos azuis e melancólicos, um vagabundo, um indivíduo típico de histórias norte-americanas, que bebe mais conhaque do que água. Ele ouve emaranhados de Engenheiros do Hawai como se as canções fossem dele, contagiou-me com uma certa efusão de tristeza que já tinha me esquecido, transformando os meus ideais em litros de cenas alegremente depressivas, todos os gritos reprimidos foram soltos na pinga e no rock.
- bruninha, o rock salvou minha alma, mas estragou o meu corpo! – e com uma risada rouca reiterava – e o que cê acha do bota fogo?
Por trás de tantos risos, a fumaça esvaziava um olhar doce, evidenciando um caminho tão longo que lhe dava licença de utilizar tantas palavras dionisíacas. Não era um amigo que se cria um vínculo eterno, logo desvincularia por completo. Seria rapidamente órfã dele assim como fui com a Amanda, a Tais e a Clarice. No final, teria que saltar os muros impostos com minhas próprias pernas e acobertada com seu rock n’ roll, o sangue contínuo de suas palavras.
- eu era tão bossa nova que tinha me esquecido do rock, - confessava ao meu amigo
- eu tenho uma teoria da bossa nova, às vezes é bom ficar no violão e no banquinho, mas depois eu volto pro rock and roll pra botar os pés no chão – tragando inexpressivo outro cigarro malboro.
Acho que durante muito tempo, perdi-me em mim. Influenciada demais por minha bela subjetividade, muito mulherzinha, viciada demais com tantos intelectualismos, sem gritos, sem inquietudes pra fora, sem sexo, sem porres, estava demais sóbria. Com tanto equilíbrio, tinha me esquecido das minhas metamorfoses, precisava inventar o amor, precisava inventar um drama. O mundo estava inexplicável de novo, os sentimentos voltavam com rangidos finos de guitarra, a rebeldia contagiava-me, agora podia assumir um pouco de poesia. O rock tinha me salvado! Me colocou de novo no chão tão bossa nova, uma alma contaminada por muito intelectualismo.
- bruninha, eu não quero que te falar o que eu sei, não quero que você se torne eu, porque eu vou embora, então não sou seu exemplo. Sou um herói errado, nem tenho o corpo de dezoito mais, sou gordo e perto da morte.
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