quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Divagando com óculos escuros muito estiloso na volta pra casa


A
Então... Pausei de novo. Larguei as minhas responsabilidades para atravessar São Paulo por causa de outro estranho que conheci à toa. Ar seco. Muito quente. Podia chuver, né?
- oi, cê podia me dá algo pra mim comer? Qualquer coisa serve?
-num tenho não, só tenho aqui dinheiro pra passagem
Pra variar, a multidão de homens e mulheres bem vestidos caminhando por aqui, trombando-se com outros, também estressados. Tem coisa que nunca muda, por exemplo, essa Avenida. Continua a mesma, porém, silenciosamente, degradada.

B
Mas, eu? Eu? Claro, eu sou paulistana patriótica. Sou tão paulistana quanto o esgoto do Tietê, porque essa cidade é feito por homens inocentes e limpos, tão cheirosinhos, que se esquecem de limpar a bunda quando saem de casa. Abandonam-se ao odor de bosta, pois acostumaram-se a sujeira patriótica.  A ordem é essa: amai-vos e fedei-vos, juntos irmãos! O progresso é uma coisa emocionante (quase apoteótica!): câmaras invisíveis da última geração espalhadas pela cidade com uma sensação de insegurança rodando o ar (Ou será que é o cheiro do rio Tietê?).

C
Eu prefiro dormir, mas eu acordo. Abro os dois olhos e insisto em ficar sã.
- oi
- sim
- você tem dois minutos pra salvar o mundo? – diz o ativista do Greenpeace
- não tenho não
Engulo a saliva. O sol penetra meus olhos. Ando. Eu vou comer um miojo que não vai matar a minha fome hoje à tarde. Será que eu pego esse ônibus ou outro?

D
Do nada, esperando o tempo ficar meu amigo e chegar logo em casa. Pensei algo insignificante: puta, faz 220 anos que aconteceu a Revolução Francesa! Quantas vezes o capitalismo revolucionou de lá pra cá? Eu sou fruto de tantas memórias de porcarias e violência. Mesmo não sendo francesa. Também nem precisa, meu Brasil do doril e anil, tem nome de remédio e não tem a cura do câncer nem da AIDS. Brasil, meu Brasil, por que você ainda gosta de fazer crianças se faz tempo que a miséria toma no seu rabo e diz que aqui não tem mais espaço pra mais homens doentes?
Meu Brasil! – o seu lema é: “ A Merda e Os Fudidos”. 

E
Mas o Brasil é o país do futuro. O Itaquerão é o centro do universo em 2014. Esse país ainda vai pagar a conta da crise econômica mundial. Sim! Os fudidos vão doar o sangue, os fudidinhos e o coração para alimentar a economia internacional, a merda vai adubar o projeto capitalista.  O Brasil é o super-homem!

F
Quem diria? Eu, em plena juventude, assistiria de perto uma mudança da nova ordem mundial. O gigante vai morrer. Está morrendo.

G
Cheguei. O tempo passado é um agora cheio de séculos. 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Mundo mundo vasto mundo

A minha existência equivale um segundo na história, não é nada. Mas, mesmo assim, o risco de inventar e de  expressar a própria opinião é muito grande, é impressionante como a gente ainda precisa de esteriótipos para embasar a nossa visão das coisas. Isso é feio gente! Minha gente... 

Mas vamos lá, isso aqui não é uma crônica, nem nada. É só um texto esparso, não tem argumentos e nem nada, é só uma necessidade absurda de colocar o que eu penso. Eu acho que precisamos sim nos preocupar com o mundo, pensar sobre política, arte e cultura. Podemos até não se filiar a partido ou uma ceita religiosa, mas vivemos em sociedade, o mundo não vai mudar (mesmo!) se todos cruzarem o braço e esperar milagres acontecerem. Não funciona assim, para se criar qualquer coisa, inclusive uma nova maneira de viver e existir, é necessário a conjugação das leis da natureza ou da força de outros homens, ou melhor (usando uma expressão que aprendi no teatro), tem momentos que precisamos ser a escada do outro.

Reconhecer que tem gente com mais tempo e tradição que você não é nenhum demérito. Pelo contrário, é uma conjugação de forças. O homem só foi para a lua, quando percebeu que existia uma lei da gravidade e utilizou-a a seu favor; senão, não ia para lua. Simples assim. É também parte do universo, a aprendizagem de ceder e reconhecer no outro algo que, muitas vezes, não existe em você ainda.

Eu falei isso. Pra dizer duas coisas: 1ª) Parem de reclamar de tudo, a política não vai melhorar assim, aprendam como funciona o mecanismo das coisas para propor mudanças (seja humilde mano!); 2ª) Se não gostam das coisas que estão vendo hoje no mundo, criam um outro mundo (como? Isso é problema seu!). O mundo é muito vasto, tem gente que está nele faz muito tempo, eu SUGIRO que, a melhor forma de propor mudanças, é reconhecer essas pessoas que já conhecem o mecanismo das coisas um tempo maior que muitos jovenzinhos como nós, vamos ser humildes! E aprender com esse povo. 


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Dores de corno (ou mesmo esfomeados anônimos)


- então, ele não ligou?
- ligou na segunda, mas sumiu
- vocês não estão mais?
- sei lá, acho que a gente nunca teve mais. Caso é caso, vai e volta
- Você não vai ligar pra ele?
- não, ele não retorna meus telefonemas
Elas param de falar. Olham um velhinho atravessando a rua. De repente, próximo ao pé direito da segunda mulher, cai no chão o pirulito , o olho da primeira mulher fica babando.
- Ah!!Meu pirulito...
- come assim mesmo
- vou tentar
Passa um cachorro. O animal come os restos do doce. As duas ficam sem movimento. Aquela que perdeu o pirulito fica sem ação, até perceber o último pedaço de chocolate da outra.
- posso comer esse chocolate (tira da mão da outra sem o pedido de favor)
- po...
A outra mulher fica com os beiços lacrimejando de dores. As duas mulheres sentem uma necessidade quase sobre-humana de assassinar uma a outra. Por causa das convenções sociais, fingem não sentir nada. Nem saudade do gosto dos doces, nem vontade de matar uma pessoa.  

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Sobre o mundo de ruínas e a pobreza de experiências

Esse texto é de 1933, após a crise econômica de 1929 e da esperança próxima da Segunda Guerra Mundial. No primeiro momento, existe uma ilustração de uma história entre pai e filhos. O pai conta aos filhos que, ao cavar a terra, eles encontrariam um tesouro perdido. Os filhos cavaram e não encontraram nenhum tesouro. Entretanto, com a chegada do Outono, as vinhas produziam mais que em qualquer região. O pai queria comunicar uma experiência aos filhos: a felicidade não está no ouro, está no trabalho. A experiência era comunicada de pai para filho, atravessando gerações; ou era feita a comunicação de uma maneira benevolente, ou, o contrário, a comunicação era ameaçadora. BENJAMIN, 1994, p. 114, questiona: “Que foi feito de tudo isso? Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas [...] Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência?”.
O que aconteceu que as experiências ficaram incomunicáveis? As experiências ficaram pobres. A geração que viveu e experimentou as experiências terríveis da história entre 1914 e 1918. Estavam incomunicáveis. Muitos combatentes voltaram do campo de batalha ainda mais silenciosos. Ficaram mais pobres de experiências, e não mais ricos. Nos dez anos seguintes, o mercado literário ficou infestado de livros sobre a experiência da guerra; nos livros não continham experiências orais, não havia autenticidade nos relatos. “O fenômeno não é estranho. Porque nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadas que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela fome, a experiência moral pelos governantes” [BENJAMIN,1994,p.115].
O desenvolvimento da técnica sobrepunha-se ao homem. A aceleração e o excesso de novas concepções de mundo e ideias não modificaram o homem e também as relações sociais (por exemplo, a gnose, o vegetarianismo, o espiritualismo e a renovação da astrologia e a ioga), na realidade, - passando a expressão para uma construção coloquial, - era como “tapar o sol com a peneira”. Mascaravam as reais necessidades da sociedade, escondendo a miséria, enquanto os burgueses festejavam carnavais. A experiência era separada da vida dos homens, aos poucos, perdia-se a capacidade de contar histórias e dar conselhos para novas gerações. A esperança mais próxima, baseando a vida nisso, era de um Renascimento de ruínas. O rosto, desenhado por essa modernidade, era parecido com um mendigo medieval, bem calado, mudo. BENJAMIN (1994) reafirma centenas de vezes que a experiência e a arte de contar histórias foram subtraídas da vida dos homens, sendo uma forma de honradez confessar a nossa pobreza. As experiências pobres não são mais individuais, porque atingem toda a humanidade. Surge, então, um novo conceito de barbárie.
“Barbárie (do gr. Barbaros: estrangeiro, não civilizado): Para os gregos e os romanos, estado de quem é estrangeiro e não civilizado. Posteriormente, para os cristãos, estado dos não evangelizados. Daí a ideia errônea de uma ‘civilização ocidental’ superior e diferente da barbárie (outras civilizações): ‘Barbárie é o poder sem liberdade nem lei’ [KANT]. Toda civilização pratica atos de barbárie, constituindo verdadeiramente atentados aos direitos fundamentais da pessoa humana: crime nazista, torturas etc. Neste sentido, toda violência pode ser considerada um ato de barbárie” (conceito retirado no Dicionário Básico de Filosofia, de Hilton Japiassú e Danilo Marcondes, ano 2006. Rio de Janeiro: Editora Zahar).
Walter Benjamin (1994) opõe-se a ideia de experiência tradicional. O homem é criador da história, podendo criar outras experiências, inclusive na barbárie. O bárbaro, segundo esse conceito positivo, é impelido a contentar-se com pouco, a construir com poucos meios e a começar de novo. “Entre os grandes criadores sempre existiram homens implacáveis que operaram a partir de uma tabula rasa. Queria uma prancheta foram construtores. A essa estirpe pertenceu Descartes, que baseou sua filosofia numa única certeza – penso, logo existo – e dela partiu” [BENJAMIN, 1994, p.116]. Uma das características dessas cabeças é a desilusão radical com o século atual e ao mesmo tempo uma total fidelidade a ele. “Pouco importa se é o poeta Bert Brecht afirmando que o comunismo não é a repartição mais justa da riqueza, mas da pobreza” [BENJAMIN,1994,p.116]. Assim, tem-se a necessidade emergente de criar uma nova linguagem e um novo homem. Algo que pertença das ruínas e faça delas também criação, quer seja o uso de uma linguagem aludindo nomes temporais como Outubro indicado uma alusão à Revolução Russa, quer seja uma confissão aos outros todas as experiências miseráveis que viveram na juventude. Mas a militância vem na criação de um homem diferente do herói aristotélico e aristocrático, ou mesmo, do homem burguês e capitalista que criou toda a barbárie (o conceito negativo do mesmo) e tenacidade com relação ao mundo. Portanto, para a possibilidade do novo emergir, a radicalização da barbárie se faz necessária, já que existem ruínas por toda parte. O homem fará parte delas e criará a partir disso. Todos serão estrangeiros de sua própria humanidade, são todos bárbaros.
Assim, será feita uma cultura de vidro. O vidro é um material inimigo do mistério e da propriedade. “Se entrarmos num quarto burguês dos anos 1880, apesar de todo o ‘aconchego’ que ele irradia, talvez a impressão mais forte que ele produz se exprima na frase: ‘ Não tens nada a fazer aqui’”(BENJAMIN, 1994, p.117). A casa de vidro não tem espaço para intimidade e não pode haver vestígio nenhum de uma aura humana por ali. Mesmo quando alguém quebre um copo, a emoção é fingida e, ao mesmo tempo, o medo de deixar vestígios de humanos ali é iminente. Se tiver – o autor W. Benjamin(1994) usa essa frase de Brecht - : “apaguem os rastros!”. Subtraí essa possibilidade de vida na terra. É preciso criar espaços onde não é possível deixar vestígios.
BENJAMIN(1994) esclarece que os homens para ser fiel ao seu século, deve confessar que vive uma experiência de ruínas. Isso não significa que aspiram a viver novas experiências, aspiram a vivenciar e ostentar abertamente suas misérias intelectuais, morais e materiais. Muitas vezes, pode-se afirmar o oposto: “eles ‘devoraram’ tudo, a ‘cultura’ e os ‘homens, e ficaram saciados e exaustos” (idem, p.117). Tudo porque não concentraram a invenção num plano simples e não quiseram investir no pouco e nessas ruínas. O sonho ficou doente, pois a sociedade investe todas as suas energias e forças em cima dele, compensando assim o desânimo no final do dia. A humanidade sonha viver numa existência que zomba todo o progresso tecnológico e também produz milagres, ultrapassando a própria natureza. “A existência do camundongo Mickey é um desses sonhos do homem contemporâneo [...] Pois o mais extraordinário neles é que todos, sem qualquer improvisamento, saem do corpo do camundongo Mickey, dos seus aliados e perseguidores, dos móveis cotidianos, das árvores, nuvens e lagos” (idem, p.118).
Portanto, segundo o autor, para criar e inventar, os homens precisam ser solidários com aqueles que renunciaram tudo. Construir edifícios de novo a partir das sobras de grandes impérios e com poucos meios. BENJAMIN (1994) relata sobre a crise econômica de 1929 próxima da porta, perto dela, a única e tenebrosa esperança, a Segunda Guerra mundial. A humanidade prepara-se para sobreviver a cultura. (E pensar que, diante a esse fatos, muitos que completam duas décadas de existência hoje e preparam-se para vivenciar uma vida de adulto, são frutos dessas relações sociais. Somos filhos dos sobreviventes da cultura, também pertencemos a ruínas). 



Referência Bibliográfica:
BENJAMIN, Walter. “Experiência e Pobreza” in: Obras escolhidas: Magia e Técnica, Arte e Política; Tradução de Sérgio Paulo Rouanet; prefácio de Jeanne Marie Gragnebin. 7 edição. São Paulo: Brasiliense, 1994, pp. 114-119. 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Pedido de Namoro


Namore comigo, prometo te amar até quando o meu amor acabar por ti. Quantas vezes quer fazer amor comigo? 500 ou 1001? Eu faço amor com você até quando um dos dois enjoar! Juro! Fala que sim vai, se falar não, eu vou ter que aprender de novo a viver sozinho. Se ficar comigo, te faço a pessoa mais separada e sozinha do mundo! Se ficar comigo, prometo que te darei uma desilusão amorosa inesquecível e ainda deixo um filho pra criar.
A gente vai trepar muito no começo. Mas, depois, você vai dormir ao lado esquerdo da cama e vai esquecer a cor dos meus olhos. Namore comigo, vai, prometo que você vai ficar doente de tanto relembrar o sabor do meu beijo e das minhas mãos quando notar a minha ausência definitiva na sua vida. Por que agradecer? Você vai ficar mais sozinha comigo do que antes. Por que esse olhar de gratidão? Por que você abana o rabinho pedindo atenção? O que você quer de mim? Eu vou te dar o meu amor, muito, muito, em quantidades ainda maiores, em excesso e, depois, eu vou  esquecer de você tão rapidamente que é capaz de encontrar-lhe no supermercado e não recordar o seu nome. Ainda quer namorar comigo?
Namore comigo. Eu sou quem você procura, tenho os olhos e o corpo dos seus sonhos. Só esqueci de dizer que eu também cago e gosto de fazer algumas coisas bizarras no sexo. Eu não presto, estaria na fogueira da Inquisição hoje, se ainda existisse isso, talvez por atentado ao pudor ou mesmo por subversão dos bons valores e do comportamento cristão. Mas acho mesmo que a gente devia namorar, tentar morar juntos, dividir apartamento e dizer um pro outro o quanto a gente se ama. Eu poderia tentar agora mesmo, olhar nos seus olhos e dizer: eu te amo.  Correndo um risco, um tenebroso risco, de a qualquer momento, tudo isso ser desmascarado e nós dois descobrirmos que todo esse amor que um sentia pelo outro não era mais do que um grande engano. Ainda namora comigo.  

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O homem do Bar Pescador


Primeira parte
Uma turma de amigos, na faixa etária entre 18 a 20 anos, alguns risos e alguns sonhos, celebrando as existências de ruínas que tiveram até agora. A vida é uma piada. Uma música da moda ao fundo: “eu quero tchu e tcha!”.  E uma certeza exata que pra ser feliz, só basta de pouco.
Um músico se levanta e diz:
- “Porra, O Celso Russomano está tão feliz, repararam o sorriso no rosto dele quando ele fala que o Maluf não é problema dele. O Russomano diz: pergunta pro Haddad sobre o Maluf, isso é problema dele agora. O Maluf é a batata quente que ninguém quer segurar”.
Outra mocinha fala alto, blusa vermelha e óculos escuros (uma patricinha!):
- “Apesar dos pesares, ainda prefiro o capitalismo doce que a política do PT inventou. O Serra já era, gente”.
A Má reafirma:
-“Ainda prefiro o PT, o Serra é muito ruim”
A turma falava desses assuntos banais enquanto olhava uma notícia de Jornal sobre a declaração do Serra do bilhete mensaleiro de Haddad. O menino cabeludinho, chamado carinhosamente pelas três meninas de “Kazinho” ou “Trastinho”, finalmente pergunta para todas enquanto pula em cima do pescoço de Roxinho: “Pra onde a gente vai?”
- “Porra, Vamo pra Cuba a pé!” (diz Mari, aquela patricinha de blusa vermelha)
- “Se a gente continuar assim, andando desse jeito, é capaz mesmo da gente ultrapassar fronteiras”. (Má ri, concordando com Mari, as duas andam abraçadas pela calçada – sendo que tinham acabado de virar amigas de infância).


Segunda parte
Roxinho começa a cantarolar uma canção na mesa. Kazinho começa a batucar na mesa. Má também acompanha a cantoria, Mari fica batucando e puxa a dançoria. Todos acompanham o ritmo da música com o corpo, ficam fazendo isso por uns tempos. O Garçom se aproxima e pergunta:
- “ eu quero ver a carteira de identidade de vocês”
Todos mostram. Má não consegue achar algum documento com foto na bolsa, mostra todos os cartões de crédito e etc, até conseguir achar algum, finalmente compram as bebidas.
- “ é o que dá a gente ter carinha de jovenzinhos. Né não!.. Garçom”. 
O garçom responde com a cabeça afirmativamente. 
- “vamos pedir uma porção de batata fritas”
- “alguma preferência de cerveja?”
- “pra mim qualquer uma”
- “pra mim também. Será que é mais barata que no outro bar? GARÇOM, quanto que é a cerveja aqui?”
- “ seis reais”.
 A turma olha com o rosto de desconfortamento. Mas dão risada logo em seguida.
- “ eu posso só pagar uma”
- “a Má já pagou a primeira cerveja do último bar”
- “ é verdade! Deixa que a Priscila quando chegar, pague todas as rodadas...”
- “ é isso aí, ela que chega atrasada, ela que paga!”
- “ Então, gente, esse papo está com a nota 9,18!”
Gargalham. O último bar que eles estavam era lá embaixo da R. Augusta, chamado Pescador. Era um lugar mais ou menos, mesmo assim, a cerveja era muito cara, só puderam beber uma garrafa. 
A Má virou o copo, olhou e rindo disse:
-“nunca mais vou esquecer aquele cara, vocês ouviram o que ele falou quando eu perguntei de onde ele era, (as mãos em cima da mesa, os olhos fixos no copo, Má reproduzia o jeito do homem misterioso do Bar Pescador): ‘eu vim dos seus pés’”.
Kazinho encheu um copo de cerveja e colocou no meio da mesa:
-“esse é da Priscila, ninguém mexe”
- “Poxa trastinho, que maldade!” Todos riam. Mari cruzou as pernas lentamente, olhou o rosto de Kazinho e Má, disse:
- “Então, eu quero saber o nome da mãe de vocês, um por um:
 1) Regina -  Kazinho disse
2) Maria – Má disse
3) Neide – Kazinho outra vez, mas com uma voz de mulherzinha
4) Messias (Roxinho imitava Mari nessa cena)
MESSIAS!”
Roxinho sentou com as pernas cruzadas na cadeira. Deu risada e bebeu mais um pouco de cerveja. Mari arregalou os olhos, pegou as mãos de Roxinho e perguntou:
- “sua mãe se chama Messias mesmo. Nossa! Não posso falar da bíblia aqui. Olha gata: eu rezei tanto pra Deus pra aparecer alguma coisa boa e apareceu você, a filha de Messias”.
Mari deu risada, sentou normalmente e colocou mais cerveja no copo. Roxinho disse:
- “poxa, o cara te pegou pra Cristo...”
- “pois é, pegou mesmo. Cara doido! Ele não parecia estar bêbado só, parecia ser outra coisa, o cara conversava com Deus, você viu Má, ele dizendo que preferia morrer com essa loucura, porque ninguém podia tirar dele a experiência de ter visto Nossa Senhora”.
- “não parecia ser só bebida mesmo não”
- “não era” – respondeu Kazinho. Roxinho o interrompeu com olhar de seriedade;
-“Sabe o que o cara parecia. Tipo um daqueles caras cheios da grana, muito rico, que perderam tudo, teve que dividir a herança com mais quatro ou cinco pessoas. Só ficando com o terreno dele e os pés de cajueiro, na maior decadência”.
- “tipo isso mesmo. Meu, acho que ele era budista. Ele tava muito louco”
-“ se a gente deixasse, ele ia beber mais cerveja nas nossas costas, viram a interpretação que ele tinha feito, dizendo que tinha esquecido dinheiro em casa”
-“ não esqueça a perninha cruzando” – Kazinho puxando a piada. Todo mundo rindo junto.
- “ e a mãozinha ao vento, lembra Mari..”
- “lembro Má, ele falando que não esperava mais nada da vida, já tinha perdido tudo. Aí Deus falou que ia levar a mãe dele embora, (imitando o homem do Bar Pescador, a mão direita em cima das orelhas e mexendo os dedos): ‘quer levar a minha mãe embora, então leve... Adeussss!’ Não dá pra enfrentar a morte. Ela sempre ganha.”



Terceira parte
O homem do Bar Pescador é careca, rebola a bunda enquanto anda, usa camisa branca, uma calça cinza toda mixada. Um restinho de cabelos brancos na barba e atrás das orelhas, caminha por entre os bares esperando que alguém o escute, procurando compreensão. Mas todos fogem dele.
Segurando a mão da filha de messias, ele olha nos olhos da mocinha, bem arregalados. Depois de ter aberto o coração para aqueles jovenzinhos, espera o que deles? Segura nas mãos da mocinha.
A mocinha diz: “Tá tudo bem!?”
O homem do Bar Pescador responde: “Eu preciso ir ao banheiro. Gente, eu vou, mas esperam, porque essa conversa está com a nota 9,18”  
A turma de amigos sai de fininho, correndo na calçada já misturada com as cores noturnas. Eles gritam: “vamo ver gente bonita, metida e descolada!”.
A patricinha diz: “Cara doido! E ele: ‘sou contra o homossexualismo. Não, Não, não é contra, essa palavra é muito forte. Mas eu não dou a bunda pra ninguém, um monte de gente quer comer ela, mas não dou, não dou!... Eu só gosto de comer a bunda dos outros’”.
Roxinho diz: “ eu gosto de ver gente assim, o povo do teatro me levava pra conversar com esse pessoal”
Kazinho: “ é capaz da Mari fazer um conto sobre isso, do jeito que eu conheço essa menina”
Mari: “ Ei trastinho! Vamo pra outro bar, o Kazinho paga tudo dessa vez!”  


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Espelho II:

Sobre o tempo e a memória 

Procures a palavra memória nos dicionários. Achaste algo? Nada, não é?! Passando perfume, limpando a cara da sujeira e da poluição da cidade de São Paulo, ora eu me lembro do meu rosto antigo que muito se parece com este de agora. Ligo o rádio, fito-me demoradamente e percebo uma espécie de déjà vú; em algum outro momento, eu já fizera essas mesmas ações que agora estou repetindo. Estranho? Ainda não. São coisas cotidianas, feitas rapidamente sem reflexão, nem tudo da vida precisa realmente pensar, tem certas coisas que a gente só faz mesmo.

Memória... Memória... Então, como essa palavra me persegue! O significado de dicionário é insuficiente para lidar com a sensação de um cheiro antigo de perfume, um odor amigo que me dava tanta alegria, como humor. Aí que saudades de Má, uma amiga do Ensino Fundamental que, hoje, não deve nem lembrar que eu era a sua maior confidente das paixões secretas da meninice. Concluo: ela já deve ter casado.

Molho o rosto. Na minha adolescência, fiz um texto sobre os espelhos, hoje nem lembro e nem gostaria mais de relembrar as palavras que eu deixei nessa marca do passado. Fito-me outra vez. A minha pele branca se distrai quando é observada por mim, sou quase um Narciso. A memória não devia ser como um cofre, deixando as lembranças perdidas dentro de nós, os cadeados traumatizam sonhos, perdendo o exato instante que deixamos de ser o que éramos. Limpo-me com uma toalha, os meus olhos quase esquecem que estão olhando os mesmos olhos, sorrio para mim mesma, brinco de pentelhinha sorridente, as sobrancelhas levantam-se com espanto e encaram-me com tom de desafio, como se perguntassem: tens coragem de ser o que quer ser, mocinha?

Procuro a palavra memória no dicionário? Não sei se preciso. Perco a ideia de tempo enquanto vivo a efemeridade do dia. A vida-a-vida é intragavelmente mais insuperável que a ideia de teorizá-la, (alguém importante deve ter falado isso). Não consigo explicar a realidade, tem coisas que gosto de lembrar, e outras que me deixo esquecer. Aí que saudades do tempo que eu jogava bola com os meninos, não tinha medo de ficar suja de lama e corria mais rápida que o vento. Isso é muita nostalgia ou será que já era uma afirmação da vida que eu vivo hoje? Alguém importante também dizia que toda criança anseia tornar-se adulto, todo adulto envelhece. 

Fito-me outra vez. Mudei algo nesse minuto? Como  será que eu era meio minuto atrás e como estou agora? O tempo foge das minhas mãos. Envelheci alguns séculos essa semana, mas esqueci de contar para os mais velhos. Apago a luz, fecho a porta do banheiro. O espelho nunca muda, permanece espelho.