domingo, 16 de setembro de 2012

Desabafo sobre o andamento de um certo texto não escrito: Do tratamento sobre o tempo presente em outros processos dramatúrgicos


Casos dramatúrgicos: Nora e Édipo
Eu vivendo nessa modernidade, insisto como uma adolescente babaca em afirmar o meu lugar na estante desses livros clássicos. Mas não estou aqui para discutir a tradição, ela existe e nela encontramos valores da nossa tradição e da nossa cultura. Estive nesses intervalos, repensando as dramaturgias de Nora (Casa de Boneca, de Ibsen) e Édipo (Édipo rei, de Sófocles).
A experiência de Édipo inicia na ignorância e na necessidade de responder uma pergunta: quem foi o assassino do antigo rei de Tebas, o que até então não sabido por ele diante do início da investigação, que Laio era o seu pai. O processo de investigação faz com que ele encontre pistas as quais vão se aproximando mais perto do verdadeiro criminoso pelas pestes que amaldiçoaram a cidade de Tebas, o próprio Édipo rei, tirano e bom senhor de todos; na realidade, também fizera essa atitude terrível e não se recordara desse passado, era ignorante do seu próprio destino. Édipo acaba despertando o monstro que ele não sabia que existia nele, o assassino do seu pai e o amante da sua mãe. Um homem culpado, portanto o destino dele é o exílio de Tebas.
A experiência de Nora inicia na proteção e na calmaria do seio do lar e da família burguesa, esposa do diretor de um banco, ela que come caramelos escondido e mente descaradamente para o seu marido.  No passado, para ajudar o marido com uma doença e conseguir dinheiro, ela falsifica a assinatura do seu pai para a família viajar e descansar na Itália.  Acontece uma chantagem em cima da dama, Nora precisa conseguir um emprego no banco para Krogstand, o homem que fez esse acordo com ela em troca da condição de esconder o documento de seu marido. Senhora Linde se posiciona de modo a que faça esta primeira revelar tudo para Torvald sobre esse crime.  Nora desperta o passado, resolvendo através da revelação e da confissão, ao seu marido Torvald, sobre esse ato de falsificação em um documento no passado. Ao revelar, Nora rompe a tradição, sai de casa e deixa de manter as aparências de calmaria no seio de uma família burguesa. “Na hora que Nora sai e bate a porta, abre-se um vão, o céu quase aborta. A lei que era morta, cai no porão” (Canção de Nora, Tom Zé). Ela pegou a história e fez com as suas próprias mãos.
Em ambos os casos dramatúrgicos, o passado é despertado no presente. No entanto, no tratamento de Édipo o problema é as pestes, isso é um problema real que existe no agora, precisa resolver hoje e aqui. No caso da Nora, o problema é esconder essa falsificação que fez no documento, um crime que pode deturpar a imagem da família perfeita e de Torvald; o problema é real, mas está no passado, mesmo precisando que seja resolvido no agora.
II
No Édipo despertar o passado, não trouxe a liberdade, prendeu-se para sempre no castigo e na eterna culpa que sentia por sujar a cidade e a sua família. Esse valor não foi possível realizar e cumprir-se nessa personagem. A culpa enclausurou sua existência e no fim separou uma parte dela para continuar vivendo. Na Nora despertar o passado, apesar de difícil, trouxe a liberdade, não era mais alegre, mas tomou a decisão de romper com o teatro burguês, ficando mais séria e saindo para constituir a história além da arte. Esse valor realizou-se nessa personagem, no entanto não sem arcar com as consequências, sem lutas ou conflitos, não houve romantismos e nem alegria quando Nora saiu de casa, abandonando o lar para escrever o seu próprio roteiro.
Em Walter Benjamim, o materialista histórico deve despertar no passado uma experiência única, deve imobilizar o presente e os gritos que ainda presidem o instante do aqui e do agora. Talvez, em Nora, isso se vê mais claramente, o passado é posto como uma experiência que precisa ser resolvida e que no final o presente é transformado. Nora muda o meio que vive e se modifica também.

Reflexões sobre autoria e arte                                                                                   
Agora vem a questão: qual é relação dessas obras com a arte que produzo? Nenhuma. É um processo dramatúrgico bastante utilizado, até esgotado por muitas pessoas. Porém, como não sou uma pessoa original, e é esses tratamentos que fazem e observo sobre o tempo presente, me interessam, então apenas noto e anoto para não esquecer e tentar imitar mais tarde.
Como falar do presente hoje sabendo tão pouco desse passado? O processo já andou e entrei nele já com “o bode andando”. Às vezes, por medo de errar, não fazemos o que queremos fazer, o temor nos atrapalha. Entretanto (longe disso ser um tratado de autoajuda!) de que vale a vida se fica proibido inclusive o verbo inventar nos nossos dias.
Estava re-escrevendo uma peça que trabalhava no começo do ano “Pra que não falar de amor em tempos de caos”, mudei todo o meu caminho. Transformei a maneira de contar a história e os dramas da juventude de Anabelle e Miguel. Dois jovens que precisam tomar alguma decisão em pleno fim do mundo.  Se Anabelle sair na rua no dia do fim do mundo vai morrer por causa das Forças Armadas e de uma massa intolerante de homens que estão loucos para matar mulheres de classe média, em compensação, ela não deseja que a sua mãe morra também por esse motivo, só que ela não pretende voltar para casa da tia e passar o ano novo comemorando o medo. Então... Ela precisa decidir se vai passar a noite do fim de ano e do “possível” fim do mundo dentro do quarto de motel ao lado de um rapaz que conheceu a pouco tempo e a pouco metros de distância em um bar? Todo enredo deve (não sei) passar dentro do quarto do motel, ambos contam a experiência de viver no último dia do ano e do caos do fim da história. Pra que esse texto é importante?
É uma tentativa de flagrar a relação de dois jovens com um mundo que está prestes a terminar uma história. Não é para revolucionar nem nada, nem para criar linguagem nova nenhuma, até porque é absolutamente banal e tosco. No entanto, conta sobre os filhos dos sobreviventes e sobre a escolha de alienação e individualização para se proteger contra um mundo violento. A necessidade de uma autoconservação e o trânsito de jovens que poderiam mudar a história que se refugiam dentro de um universo escondido e mais ou menos privado, no mundo de transição. Vivem nessa democracia que iniciou-se a pouco tempo, mas sem conhecer os mortos e os sobreviventes da própria história que já correu. Eles estão no meio do processo, mas são absolutamente ignorantes, sem saber qual caminho tomar, muitas vezes, não escolhem caminho nenhum. Ficam a beira.
Ainda estou re-escrevendo. Esse ensaio é só um desabafo. Talvez, eu nem termine. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Divagando com óculos escuros muito estiloso na volta pra casa


A
Então... Pausei de novo. Larguei as minhas responsabilidades para atravessar São Paulo por causa de outro estranho que conheci à toa. Ar seco. Muito quente. Podia chuver, né?
- oi, cê podia me dá algo pra mim comer? Qualquer coisa serve?
-num tenho não, só tenho aqui dinheiro pra passagem
Pra variar, a multidão de homens e mulheres bem vestidos caminhando por aqui, trombando-se com outros, também estressados. Tem coisa que nunca muda, por exemplo, essa Avenida. Continua a mesma, porém, silenciosamente, degradada.

B
Mas, eu? Eu? Claro, eu sou paulistana patriótica. Sou tão paulistana quanto o esgoto do Tietê, porque essa cidade é feito por homens inocentes e limpos, tão cheirosinhos, que se esquecem de limpar a bunda quando saem de casa. Abandonam-se ao odor de bosta, pois acostumaram-se a sujeira patriótica.  A ordem é essa: amai-vos e fedei-vos, juntos irmãos! O progresso é uma coisa emocionante (quase apoteótica!): câmaras invisíveis da última geração espalhadas pela cidade com uma sensação de insegurança rodando o ar (Ou será que é o cheiro do rio Tietê?).

C
Eu prefiro dormir, mas eu acordo. Abro os dois olhos e insisto em ficar sã.
- oi
- sim
- você tem dois minutos pra salvar o mundo? – diz o ativista do Greenpeace
- não tenho não
Engulo a saliva. O sol penetra meus olhos. Ando. Eu vou comer um miojo que não vai matar a minha fome hoje à tarde. Será que eu pego esse ônibus ou outro?

D
Do nada, esperando o tempo ficar meu amigo e chegar logo em casa. Pensei algo insignificante: puta, faz 220 anos que aconteceu a Revolução Francesa! Quantas vezes o capitalismo revolucionou de lá pra cá? Eu sou fruto de tantas memórias de porcarias e violência. Mesmo não sendo francesa. Também nem precisa, meu Brasil do doril e anil, tem nome de remédio e não tem a cura do câncer nem da AIDS. Brasil, meu Brasil, por que você ainda gosta de fazer crianças se faz tempo que a miséria toma no seu rabo e diz que aqui não tem mais espaço pra mais homens doentes?
Meu Brasil! – o seu lema é: “ A Merda e Os Fudidos”. 

E
Mas o Brasil é o país do futuro. O Itaquerão é o centro do universo em 2014. Esse país ainda vai pagar a conta da crise econômica mundial. Sim! Os fudidos vão doar o sangue, os fudidinhos e o coração para alimentar a economia internacional, a merda vai adubar o projeto capitalista.  O Brasil é o super-homem!

F
Quem diria? Eu, em plena juventude, assistiria de perto uma mudança da nova ordem mundial. O gigante vai morrer. Está morrendo.

G
Cheguei. O tempo passado é um agora cheio de séculos. 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Mundo mundo vasto mundo

A minha existência equivale um segundo na história, não é nada. Mas, mesmo assim, o risco de inventar e de  expressar a própria opinião é muito grande, é impressionante como a gente ainda precisa de esteriótipos para embasar a nossa visão das coisas. Isso é feio gente! Minha gente... 

Mas vamos lá, isso aqui não é uma crônica, nem nada. É só um texto esparso, não tem argumentos e nem nada, é só uma necessidade absurda de colocar o que eu penso. Eu acho que precisamos sim nos preocupar com o mundo, pensar sobre política, arte e cultura. Podemos até não se filiar a partido ou uma ceita religiosa, mas vivemos em sociedade, o mundo não vai mudar (mesmo!) se todos cruzarem o braço e esperar milagres acontecerem. Não funciona assim, para se criar qualquer coisa, inclusive uma nova maneira de viver e existir, é necessário a conjugação das leis da natureza ou da força de outros homens, ou melhor (usando uma expressão que aprendi no teatro), tem momentos que precisamos ser a escada do outro.

Reconhecer que tem gente com mais tempo e tradição que você não é nenhum demérito. Pelo contrário, é uma conjugação de forças. O homem só foi para a lua, quando percebeu que existia uma lei da gravidade e utilizou-a a seu favor; senão, não ia para lua. Simples assim. É também parte do universo, a aprendizagem de ceder e reconhecer no outro algo que, muitas vezes, não existe em você ainda.

Eu falei isso. Pra dizer duas coisas: 1ª) Parem de reclamar de tudo, a política não vai melhorar assim, aprendam como funciona o mecanismo das coisas para propor mudanças (seja humilde mano!); 2ª) Se não gostam das coisas que estão vendo hoje no mundo, criam um outro mundo (como? Isso é problema seu!). O mundo é muito vasto, tem gente que está nele faz muito tempo, eu SUGIRO que, a melhor forma de propor mudanças, é reconhecer essas pessoas que já conhecem o mecanismo das coisas um tempo maior que muitos jovenzinhos como nós, vamos ser humildes! E aprender com esse povo. 


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Dores de corno (ou mesmo esfomeados anônimos)


- então, ele não ligou?
- ligou na segunda, mas sumiu
- vocês não estão mais?
- sei lá, acho que a gente nunca teve mais. Caso é caso, vai e volta
- Você não vai ligar pra ele?
- não, ele não retorna meus telefonemas
Elas param de falar. Olham um velhinho atravessando a rua. De repente, próximo ao pé direito da segunda mulher, cai no chão o pirulito , o olho da primeira mulher fica babando.
- Ah!!Meu pirulito...
- come assim mesmo
- vou tentar
Passa um cachorro. O animal come os restos do doce. As duas ficam sem movimento. Aquela que perdeu o pirulito fica sem ação, até perceber o último pedaço de chocolate da outra.
- posso comer esse chocolate (tira da mão da outra sem o pedido de favor)
- po...
A outra mulher fica com os beiços lacrimejando de dores. As duas mulheres sentem uma necessidade quase sobre-humana de assassinar uma a outra. Por causa das convenções sociais, fingem não sentir nada. Nem saudade do gosto dos doces, nem vontade de matar uma pessoa.  

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Sobre o mundo de ruínas e a pobreza de experiências

Esse texto é de 1933, após a crise econômica de 1929 e da esperança próxima da Segunda Guerra Mundial. No primeiro momento, existe uma ilustração de uma história entre pai e filhos. O pai conta aos filhos que, ao cavar a terra, eles encontrariam um tesouro perdido. Os filhos cavaram e não encontraram nenhum tesouro. Entretanto, com a chegada do Outono, as vinhas produziam mais que em qualquer região. O pai queria comunicar uma experiência aos filhos: a felicidade não está no ouro, está no trabalho. A experiência era comunicada de pai para filho, atravessando gerações; ou era feita a comunicação de uma maneira benevolente, ou, o contrário, a comunicação era ameaçadora. BENJAMIN, 1994, p. 114, questiona: “Que foi feito de tudo isso? Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas [...] Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência?”.
O que aconteceu que as experiências ficaram incomunicáveis? As experiências ficaram pobres. A geração que viveu e experimentou as experiências terríveis da história entre 1914 e 1918. Estavam incomunicáveis. Muitos combatentes voltaram do campo de batalha ainda mais silenciosos. Ficaram mais pobres de experiências, e não mais ricos. Nos dez anos seguintes, o mercado literário ficou infestado de livros sobre a experiência da guerra; nos livros não continham experiências orais, não havia autenticidade nos relatos. “O fenômeno não é estranho. Porque nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadas que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela fome, a experiência moral pelos governantes” [BENJAMIN,1994,p.115].
O desenvolvimento da técnica sobrepunha-se ao homem. A aceleração e o excesso de novas concepções de mundo e ideias não modificaram o homem e também as relações sociais (por exemplo, a gnose, o vegetarianismo, o espiritualismo e a renovação da astrologia e a ioga), na realidade, - passando a expressão para uma construção coloquial, - era como “tapar o sol com a peneira”. Mascaravam as reais necessidades da sociedade, escondendo a miséria, enquanto os burgueses festejavam carnavais. A experiência era separada da vida dos homens, aos poucos, perdia-se a capacidade de contar histórias e dar conselhos para novas gerações. A esperança mais próxima, baseando a vida nisso, era de um Renascimento de ruínas. O rosto, desenhado por essa modernidade, era parecido com um mendigo medieval, bem calado, mudo. BENJAMIN (1994) reafirma centenas de vezes que a experiência e a arte de contar histórias foram subtraídas da vida dos homens, sendo uma forma de honradez confessar a nossa pobreza. As experiências pobres não são mais individuais, porque atingem toda a humanidade. Surge, então, um novo conceito de barbárie.
“Barbárie (do gr. Barbaros: estrangeiro, não civilizado): Para os gregos e os romanos, estado de quem é estrangeiro e não civilizado. Posteriormente, para os cristãos, estado dos não evangelizados. Daí a ideia errônea de uma ‘civilização ocidental’ superior e diferente da barbárie (outras civilizações): ‘Barbárie é o poder sem liberdade nem lei’ [KANT]. Toda civilização pratica atos de barbárie, constituindo verdadeiramente atentados aos direitos fundamentais da pessoa humana: crime nazista, torturas etc. Neste sentido, toda violência pode ser considerada um ato de barbárie” (conceito retirado no Dicionário Básico de Filosofia, de Hilton Japiassú e Danilo Marcondes, ano 2006. Rio de Janeiro: Editora Zahar).
Walter Benjamin (1994) opõe-se a ideia de experiência tradicional. O homem é criador da história, podendo criar outras experiências, inclusive na barbárie. O bárbaro, segundo esse conceito positivo, é impelido a contentar-se com pouco, a construir com poucos meios e a começar de novo. “Entre os grandes criadores sempre existiram homens implacáveis que operaram a partir de uma tabula rasa. Queria uma prancheta foram construtores. A essa estirpe pertenceu Descartes, que baseou sua filosofia numa única certeza – penso, logo existo – e dela partiu” [BENJAMIN, 1994, p.116]. Uma das características dessas cabeças é a desilusão radical com o século atual e ao mesmo tempo uma total fidelidade a ele. “Pouco importa se é o poeta Bert Brecht afirmando que o comunismo não é a repartição mais justa da riqueza, mas da pobreza” [BENJAMIN,1994,p.116]. Assim, tem-se a necessidade emergente de criar uma nova linguagem e um novo homem. Algo que pertença das ruínas e faça delas também criação, quer seja o uso de uma linguagem aludindo nomes temporais como Outubro indicado uma alusão à Revolução Russa, quer seja uma confissão aos outros todas as experiências miseráveis que viveram na juventude. Mas a militância vem na criação de um homem diferente do herói aristotélico e aristocrático, ou mesmo, do homem burguês e capitalista que criou toda a barbárie (o conceito negativo do mesmo) e tenacidade com relação ao mundo. Portanto, para a possibilidade do novo emergir, a radicalização da barbárie se faz necessária, já que existem ruínas por toda parte. O homem fará parte delas e criará a partir disso. Todos serão estrangeiros de sua própria humanidade, são todos bárbaros.
Assim, será feita uma cultura de vidro. O vidro é um material inimigo do mistério e da propriedade. “Se entrarmos num quarto burguês dos anos 1880, apesar de todo o ‘aconchego’ que ele irradia, talvez a impressão mais forte que ele produz se exprima na frase: ‘ Não tens nada a fazer aqui’”(BENJAMIN, 1994, p.117). A casa de vidro não tem espaço para intimidade e não pode haver vestígio nenhum de uma aura humana por ali. Mesmo quando alguém quebre um copo, a emoção é fingida e, ao mesmo tempo, o medo de deixar vestígios de humanos ali é iminente. Se tiver – o autor W. Benjamin(1994) usa essa frase de Brecht - : “apaguem os rastros!”. Subtraí essa possibilidade de vida na terra. É preciso criar espaços onde não é possível deixar vestígios.
BENJAMIN(1994) esclarece que os homens para ser fiel ao seu século, deve confessar que vive uma experiência de ruínas. Isso não significa que aspiram a viver novas experiências, aspiram a vivenciar e ostentar abertamente suas misérias intelectuais, morais e materiais. Muitas vezes, pode-se afirmar o oposto: “eles ‘devoraram’ tudo, a ‘cultura’ e os ‘homens, e ficaram saciados e exaustos” (idem, p.117). Tudo porque não concentraram a invenção num plano simples e não quiseram investir no pouco e nessas ruínas. O sonho ficou doente, pois a sociedade investe todas as suas energias e forças em cima dele, compensando assim o desânimo no final do dia. A humanidade sonha viver numa existência que zomba todo o progresso tecnológico e também produz milagres, ultrapassando a própria natureza. “A existência do camundongo Mickey é um desses sonhos do homem contemporâneo [...] Pois o mais extraordinário neles é que todos, sem qualquer improvisamento, saem do corpo do camundongo Mickey, dos seus aliados e perseguidores, dos móveis cotidianos, das árvores, nuvens e lagos” (idem, p.118).
Portanto, segundo o autor, para criar e inventar, os homens precisam ser solidários com aqueles que renunciaram tudo. Construir edifícios de novo a partir das sobras de grandes impérios e com poucos meios. BENJAMIN (1994) relata sobre a crise econômica de 1929 próxima da porta, perto dela, a única e tenebrosa esperança, a Segunda Guerra mundial. A humanidade prepara-se para sobreviver a cultura. (E pensar que, diante a esse fatos, muitos que completam duas décadas de existência hoje e preparam-se para vivenciar uma vida de adulto, são frutos dessas relações sociais. Somos filhos dos sobreviventes da cultura, também pertencemos a ruínas). 



Referência Bibliográfica:
BENJAMIN, Walter. “Experiência e Pobreza” in: Obras escolhidas: Magia e Técnica, Arte e Política; Tradução de Sérgio Paulo Rouanet; prefácio de Jeanne Marie Gragnebin. 7 edição. São Paulo: Brasiliense, 1994, pp. 114-119. 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Pedido de Namoro


Namore comigo, prometo te amar até quando o meu amor acabar por ti. Quantas vezes quer fazer amor comigo? 500 ou 1001? Eu faço amor com você até quando um dos dois enjoar! Juro! Fala que sim vai, se falar não, eu vou ter que aprender de novo a viver sozinho. Se ficar comigo, te faço a pessoa mais separada e sozinha do mundo! Se ficar comigo, prometo que te darei uma desilusão amorosa inesquecível e ainda deixo um filho pra criar.
A gente vai trepar muito no começo. Mas, depois, você vai dormir ao lado esquerdo da cama e vai esquecer a cor dos meus olhos. Namore comigo, vai, prometo que você vai ficar doente de tanto relembrar o sabor do meu beijo e das minhas mãos quando notar a minha ausência definitiva na sua vida. Por que agradecer? Você vai ficar mais sozinha comigo do que antes. Por que esse olhar de gratidão? Por que você abana o rabinho pedindo atenção? O que você quer de mim? Eu vou te dar o meu amor, muito, muito, em quantidades ainda maiores, em excesso e, depois, eu vou  esquecer de você tão rapidamente que é capaz de encontrar-lhe no supermercado e não recordar o seu nome. Ainda quer namorar comigo?
Namore comigo. Eu sou quem você procura, tenho os olhos e o corpo dos seus sonhos. Só esqueci de dizer que eu também cago e gosto de fazer algumas coisas bizarras no sexo. Eu não presto, estaria na fogueira da Inquisição hoje, se ainda existisse isso, talvez por atentado ao pudor ou mesmo por subversão dos bons valores e do comportamento cristão. Mas acho mesmo que a gente devia namorar, tentar morar juntos, dividir apartamento e dizer um pro outro o quanto a gente se ama. Eu poderia tentar agora mesmo, olhar nos seus olhos e dizer: eu te amo.  Correndo um risco, um tenebroso risco, de a qualquer momento, tudo isso ser desmascarado e nós dois descobrirmos que todo esse amor que um sentia pelo outro não era mais do que um grande engano. Ainda namora comigo.  

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O homem do Bar Pescador


Primeira parte
Uma turma de amigos, na faixa etária entre 18 a 20 anos, alguns risos e alguns sonhos, celebrando as existências de ruínas que tiveram até agora. A vida é uma piada. Uma música da moda ao fundo: “eu quero tchu e tcha!”.  E uma certeza exata que pra ser feliz, só basta de pouco.
Um músico se levanta e diz:
- “Porra, O Celso Russomano está tão feliz, repararam o sorriso no rosto dele quando ele fala que o Maluf não é problema dele. O Russomano diz: pergunta pro Haddad sobre o Maluf, isso é problema dele agora. O Maluf é a batata quente que ninguém quer segurar”.
Outra mocinha fala alto, blusa vermelha e óculos escuros (uma patricinha!):
- “Apesar dos pesares, ainda prefiro o capitalismo doce que a política do PT inventou. O Serra já era, gente”.
A Má reafirma:
-“Ainda prefiro o PT, o Serra é muito ruim”
A turma falava desses assuntos banais enquanto olhava uma notícia de Jornal sobre a declaração do Serra do bilhete mensaleiro de Haddad. O menino cabeludinho, chamado carinhosamente pelas três meninas de “Kazinho” ou “Trastinho”, finalmente pergunta para todas enquanto pula em cima do pescoço de Roxinho: “Pra onde a gente vai?”
- “Porra, Vamo pra Cuba a pé!” (diz Mari, aquela patricinha de blusa vermelha)
- “Se a gente continuar assim, andando desse jeito, é capaz mesmo da gente ultrapassar fronteiras”. (Má ri, concordando com Mari, as duas andam abraçadas pela calçada – sendo que tinham acabado de virar amigas de infância).


Segunda parte
Roxinho começa a cantarolar uma canção na mesa. Kazinho começa a batucar na mesa. Má também acompanha a cantoria, Mari fica batucando e puxa a dançoria. Todos acompanham o ritmo da música com o corpo, ficam fazendo isso por uns tempos. O Garçom se aproxima e pergunta:
- “ eu quero ver a carteira de identidade de vocês”
Todos mostram. Má não consegue achar algum documento com foto na bolsa, mostra todos os cartões de crédito e etc, até conseguir achar algum, finalmente compram as bebidas.
- “ é o que dá a gente ter carinha de jovenzinhos. Né não!.. Garçom”. 
O garçom responde com a cabeça afirmativamente. 
- “vamos pedir uma porção de batata fritas”
- “alguma preferência de cerveja?”
- “pra mim qualquer uma”
- “pra mim também. Será que é mais barata que no outro bar? GARÇOM, quanto que é a cerveja aqui?”
- “ seis reais”.
 A turma olha com o rosto de desconfortamento. Mas dão risada logo em seguida.
- “ eu posso só pagar uma”
- “a Má já pagou a primeira cerveja do último bar”
- “ é verdade! Deixa que a Priscila quando chegar, pague todas as rodadas...”
- “ é isso aí, ela que chega atrasada, ela que paga!”
- “ Então, gente, esse papo está com a nota 9,18!”
Gargalham. O último bar que eles estavam era lá embaixo da R. Augusta, chamado Pescador. Era um lugar mais ou menos, mesmo assim, a cerveja era muito cara, só puderam beber uma garrafa. 
A Má virou o copo, olhou e rindo disse:
-“nunca mais vou esquecer aquele cara, vocês ouviram o que ele falou quando eu perguntei de onde ele era, (as mãos em cima da mesa, os olhos fixos no copo, Má reproduzia o jeito do homem misterioso do Bar Pescador): ‘eu vim dos seus pés’”.
Kazinho encheu um copo de cerveja e colocou no meio da mesa:
-“esse é da Priscila, ninguém mexe”
- “Poxa trastinho, que maldade!” Todos riam. Mari cruzou as pernas lentamente, olhou o rosto de Kazinho e Má, disse:
- “Então, eu quero saber o nome da mãe de vocês, um por um:
 1) Regina -  Kazinho disse
2) Maria – Má disse
3) Neide – Kazinho outra vez, mas com uma voz de mulherzinha
4) Messias (Roxinho imitava Mari nessa cena)
MESSIAS!”
Roxinho sentou com as pernas cruzadas na cadeira. Deu risada e bebeu mais um pouco de cerveja. Mari arregalou os olhos, pegou as mãos de Roxinho e perguntou:
- “sua mãe se chama Messias mesmo. Nossa! Não posso falar da bíblia aqui. Olha gata: eu rezei tanto pra Deus pra aparecer alguma coisa boa e apareceu você, a filha de Messias”.
Mari deu risada, sentou normalmente e colocou mais cerveja no copo. Roxinho disse:
- “poxa, o cara te pegou pra Cristo...”
- “pois é, pegou mesmo. Cara doido! Ele não parecia estar bêbado só, parecia ser outra coisa, o cara conversava com Deus, você viu Má, ele dizendo que preferia morrer com essa loucura, porque ninguém podia tirar dele a experiência de ter visto Nossa Senhora”.
- “não parecia ser só bebida mesmo não”
- “não era” – respondeu Kazinho. Roxinho o interrompeu com olhar de seriedade;
-“Sabe o que o cara parecia. Tipo um daqueles caras cheios da grana, muito rico, que perderam tudo, teve que dividir a herança com mais quatro ou cinco pessoas. Só ficando com o terreno dele e os pés de cajueiro, na maior decadência”.
- “tipo isso mesmo. Meu, acho que ele era budista. Ele tava muito louco”
-“ se a gente deixasse, ele ia beber mais cerveja nas nossas costas, viram a interpretação que ele tinha feito, dizendo que tinha esquecido dinheiro em casa”
-“ não esqueça a perninha cruzando” – Kazinho puxando a piada. Todo mundo rindo junto.
- “ e a mãozinha ao vento, lembra Mari..”
- “lembro Má, ele falando que não esperava mais nada da vida, já tinha perdido tudo. Aí Deus falou que ia levar a mãe dele embora, (imitando o homem do Bar Pescador, a mão direita em cima das orelhas e mexendo os dedos): ‘quer levar a minha mãe embora, então leve... Adeussss!’ Não dá pra enfrentar a morte. Ela sempre ganha.”



Terceira parte
O homem do Bar Pescador é careca, rebola a bunda enquanto anda, usa camisa branca, uma calça cinza toda mixada. Um restinho de cabelos brancos na barba e atrás das orelhas, caminha por entre os bares esperando que alguém o escute, procurando compreensão. Mas todos fogem dele.
Segurando a mão da filha de messias, ele olha nos olhos da mocinha, bem arregalados. Depois de ter aberto o coração para aqueles jovenzinhos, espera o que deles? Segura nas mãos da mocinha.
A mocinha diz: “Tá tudo bem!?”
O homem do Bar Pescador responde: “Eu preciso ir ao banheiro. Gente, eu vou, mas esperam, porque essa conversa está com a nota 9,18”  
A turma de amigos sai de fininho, correndo na calçada já misturada com as cores noturnas. Eles gritam: “vamo ver gente bonita, metida e descolada!”.
A patricinha diz: “Cara doido! E ele: ‘sou contra o homossexualismo. Não, Não, não é contra, essa palavra é muito forte. Mas eu não dou a bunda pra ninguém, um monte de gente quer comer ela, mas não dou, não dou!... Eu só gosto de comer a bunda dos outros’”.
Roxinho diz: “ eu gosto de ver gente assim, o povo do teatro me levava pra conversar com esse pessoal”
Kazinho: “ é capaz da Mari fazer um conto sobre isso, do jeito que eu conheço essa menina”
Mari: “ Ei trastinho! Vamo pra outro bar, o Kazinho paga tudo dessa vez!”