sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Rock n’ Roll e o fim do mundo


- Quero um pouco de a black tea and blues, please! Eu gosto e odeio São Paulo,
o frio rasgante
junto com desequilíbrio
 do calor cortante
são,no mínimo,
 intrigante. 
Meu, eu sei que isso era pra ser uma conversa, não uma poesia.
Do que vamos papear? 
- A revolução
- artística?! Magina...  A gente conseguiu algo em 1968, uma naturalidade em naturalizar o ato de romper. Pena que só deu pra fazer isso no âmbito estético, tem gente que não tem a mínima ideia do Glauber Rocha e dos poetas populares. Estou fazendo crítica. Não era pra gente falar besteira
- como anda os seus casinhos?
- tô noiva, vou casar nos Caribes no dia 22 de Outubro de 2040. É meio longe, porque a gente quer assistir o mundo acabando
- quando que acaba?
- ah! Falaram que ia acontecer em 2040, a gente quer ver. Tanto que o casamento vai ser numa ponte. Numa ponte amarela, a música de entrada vai ser uma música bonitinha, aquelas bem calmas, sabe.  A gente pensou em Valsinha, de Chico, até Clair de Lune, de Debussy. Aí vai ser bem trash, magina todo mundo pegando fogo e uma canção bonitinha no fundo
- quantos anos vai ter?
- eu (2040 – 1992 = 48), eu vou ter 48 anos e serei uma anônima. Talvez mais feliz, talvez mais triste.  Muitos amigos já terão morrido, quem sabe eu terei filhos até lá ou continuo sendo amante do Armando. Betinha, quando voltar de Alagoa, não se esqueça de passar um tempo na minha casa, eu não cozinho bem, fazer o quê, mas posso fazer café 

O monstro de olhos vermelhos


 1
   
Escadas largas, grandes. O céu noturno gritando socorro por sua falta de estrelas. Um homem sozinho no meio do caminho bebe uma latinha de cerveja. Os olhos vermelhos vigiam o lugar, o cachorro late para um ratinho que na fuga tropeça numa lata de cerveja.  Cão come o ratinho fugitivo, o sangue se mistura com os olhos vermelhos. Olhos que fixam na figura do homem.


Dois minutos atrás, o bêbado jogou a lata de cerveja, não notou a vida que acontecia ao seu redor. Cantarolava uma canção inventada. Ele, chamado pelos amigos de Wilson, olhava para os dois bolsos da calça. Uma calça verde, o bolso direito furado, o esquerdo guardando uma pilha de papéis inúteis.  Um desses papéis era uma carta de sua ex-esposa:


“ Fui embora. Arrumei a minha mala, vou morar em Espírito Santo, levei embora comigo a Cris. Pelo bem dela e nosso, não nos procure, estamos bem.
Assinado,
Ann “


Wilson casara com Ann em 1989. Ele tinha uns vinte e dois. Ambos tinham se conhecido no Rio, era um show de rock de uma banda norte-americana. Foi um acaso que se apaixonaram, outro acaso que se traíram, mais um infeliz acaso que se separaram. Os olhos vermelhos do cachorro lamentavam  a falta de água fresca, o animal uivava para lua. O homem chorava sozinho na noite escura. Rasgava a carta da Ann,  ele pensava, a caligrafia de Ann sempre foi caprichosa, ela sempre foi uma mulher bonita, mesmo agora já envelhecendo, continuava bonita.

2

Uma tropa de policiais fazia ronda próximo de uma favela. Tinham trocado tiros com uma malta de bandidos, entraram em um beco. Escutaram um estrondo, ouviram um som qualquer. Confundiram com bala de revólver. Atiraram pra matar.

Polícia 1: Existe uma ordem dos homem lá de cima, a gente respeita
Cachorro: au au
Polícia 5: os meleque estão escondido
Cachorro: au au au aua au

A polícia 6 atira no cachorro para matar, o cão foge de medo. Os olhos vermelhos brilham debaixo de um monte de lixo.  Os policiais não encontram nada no lugar. Há uma trilha de sangue que inicia nas escadas e termina na lata de cerveja, misturada com o ratinho que morreu pelo monstro dos olhos vermelhos. Um inocente desarmado morre sem o término da história, outro caso interrompido. 

3

O monstro dos olhos vermelhos sai do esconderijo. Naquele lugar ermo, existem dois corpos.  O cachorro faz o trabalho do perito, fareja os dois corpos, o animal encontra os resíduos da carta de Wilson, uma memória da tristeza, daquele cidadão anônimo, é vigiada pelos olhos vermelhos como se fosse alimento.  

A vida do cidadão anônimo, para os olhos vermelhos, pode significar nada. Na guerra escondida, entre ratos e cachorros, Wilson foi uma vítima invisível. É provável que nem a família dele saiba do acontecido. Tudo bem. O cão terá mais carne para comer a noite. Wilson morreu de sorte e de tristeza, todos os lugares são ótimos para suicídios involuntários e desistências cabais. A morte de um cidadão anônimo interfere nos homens de bem igual ao um rato, é mais fácil sofrer por um bichinho morto do que brigar com monstros de olhos vermelhos. 

domingo, 4 de novembro de 2012

Sobre Avenida Brasil


1

Por causa da febre dessa novela, pensei e repensei muito se eu escreveria um texto, falando sobre ela. Na internet, vi resenhas criticando-a, como opiniões também elogiando. Uma crítica que me chamou a atenção (que gostei bastante), explicava onde se encontrava os aspectos machistas da novela, vou deixar nas referências abaixo[1]. Entretanto, acho que não vou fazer exatamente uma crítica, queria pensar essa novela. Por que houve tanta identificação popular? A novela conseguiu tanta audiência igual aos tempos de outra também conhecida Vale Tudo, como isso aconteceu? Me pergunto: será que houve uma mudança de estrutura dramatúrgica nas novelas para chamar atenção do público?
É até meio óbvio! Expor que as novelas possuem argumentos parecidos. Todas maniqueísta, o bem contra o mal, o mocinho sempre de olhos azuis, rico, arranjado uma experiência amorosa indo em direção ao sucesso. Mas, antes, é preciso lutar contra todos os obstáculos, o principal, na maioria dos casos, é o dinheiro. Mantendo o status quo intacto. Essa estrutura é mais antiga que a televisão, conhecida na literatura como estrutura de folhetim. José de Alencar poderia ser considerado o vovô das teledramaturgias. Aristóteles é o tataravô dessa estrutura. Ao contrário da teledramaturgia, José de Alencar e Aristóteles são cânones, dignos de serem estudados na academia; o inverso significa alienação, ignorância e etc. Enfim, não dá para negar que as pessoas se identificaram com essa novela, por isso, no meu entender, não posso fechar os olhos pra isso.
 Em Vale Tudo, surgiu o mistério mais famoso da televisão brasileira. Até quem não viu, conhece. A pergunta “Quem matou” nunca fez tanto sucesso do que nos tempos entre 1988 e 1989. Afinal, “quem matou Odete Roitman?”, uma personagem absolutamente preconceituosa, mesquinha e morta no final das contas por alguém que pouco se podia esperar.  É engraçado como essa tática está presente até os dias de hoje, quando há o famoso assassinato do final de novela, todos pensam quase de maneira previsível: “é alguém que não tem nada ver, sempre é assim, alguém que a gente não imagina”. Dito feito, na novela Avenida Brasil, seguindo a famosa estrutura de assassinato de final de novela, terminou com alguém que tinha tudo haver. E todos no meio da rua: “ não , não, vai ser alguém que nada tem haver com a história”. Essa é a maior prova de como “Vale Tudo” entrou no imaginário das pessoas, inclusive em termos de estruturação.


2

A atriz Beatriz de Toledo Segall que interpretou a famosa vilã Odete Roitman. Em uma entrevista, disse que essa novela foi tão importante para o Brasil, auxiliando inclusive no impeachment do Fernando Collor[2]. Enfim, não vou esquecer jamais a maravilhosa interpretação de Renata Sorrah, que fazia a filha de Odete Roitman, a Helena Roitman. Quem não viu, vale a pena ver mesmo! Procure no youtube.  Aliás, sou uma certa fã incontestável dela, desde Nazaré, de “Senhora do Destino”, que era ela a novela toda, afinal o toque de humor estava na vilã.  
O que vamos falar, agora, exatamente sobre isso. Adriana Esteves fez a Nazaré jovem, Renata Sorrah a segunda fase. Esse toque de humor, de certa forma, acompanha as vilãs nas novelas brasileiras, não sei precisar quando foi o início, mas em Odete Roitman acontece isso também. Então, de certa maneira, a Carminha demonstrar alguns momentos de humor não foi exatamente uma grande mudança. A Nazaré era mil vezes mais engraçada.
No entanto, entre Nazaré e Carminha, na segunda personagem existe uma mudança de tratamento aos vilões.  O que tem mudado nas estruturações das novelas e me chamado a atenção foi isso. Não foi só com a Avenida Brasil, em Passione e A Favorita também aconteceram essa mudança. A mudança é enfraquecer um dos elementos primordiais de estruturas folhetinescas: o maniqueísmo feroz.   
As novelas são conhecidas com um argumento clássico. Uma dicotomia absolutamente clara: a personagem má versus a personagem boazinha. Dependendo do enredo, essas variações de caráter podem mudar, não necessariamente depende da classe social, não é sempre a boa, pobre, e a má, rica. Isso depende do que a novela discute, isto é, o tema. E, principalmente, o ponto de vista.  Por isso, a classe social varia, mas não vou negar que, em todos os casos, a novela transmite um ponto de vista conservador. É preciso lembrar quem é que produz essa cultura, qual é o modo de produção.


3

Em Passione, relembremos a vilã Clara. Mulher sensual, um rosto de anjo que seduziu um italiano e enganou toda família dele. Entretanto, ela tinha a sua irmã, que protegia e amava, sendo capaz de fazer até coisas boas. Era a irmã dela que trazia algumas características mais humanas para Clara (atriz Mariana Ximenes). Teve um momento que o público até acreditou na mudança de Clara, mas no final isso foi invertido. A vilã mostrava qual era o seu verdadeiro lado, ela era uma vigarista, só amava e respeitava a irmã. Isso balançou um pouco a estrutura da novela, o maniqueísmo foi posto em dúvida ou, pelo menos, em cheque. Os vilões, no final, eram inimigos, Clara e Fred (ator Reynaldo Gianecchini) desconfiavam um do outro, destruíam os planos um do outro.
Em A Favorita, é importante lembrar que o mesmo autor dessa novela escreveu também Avenida Brasil, a estrutura do famoso assassinato de final de novela foi prolongada, a dúvida foi logo posta no começo. O público defendeu a vilã (Flora), depois a mocinha (Donatela). Patrícia Pilar e Claudia Raia interpretaram essa disputa que enfraquecera muito o maniqueísmo feroz.


4


 Avenida Brasil imitou o mesmo mecanismo que A Favorita, os vilões tornaram heróis, esses se mostraram ainda mais perversos e frios do que os vilões. Nina/Rita e Carminha vivenciaram as mesmas coisas, também vieram do lixo, escondem de toda a família Tufão muitas coisas do passado. Toda a ação dramática acontece por causa do passado, o presente obriga desenterrar as coisas que estão no passado para Nina e, ao final da novela, para Carminha no intuito de desvendar toda a verdade. No final, Carminha muda completamente a sua postura com relação a sua conduta na vida, enfrentando e matando o seu pai. Daria um bom Édipo Rei, afinal a personagem trágica dessa história não foi a Nina, ela teve a chance de vivenciar um final feliz, mas a heroína edipiana foi a Carminha.
Carminha matou o pai, matou o homem que amava, foi exilada de sua casa e terminou onde começou a sua infância no lixão. Antes, propiciou uma vida mentiras e de hipocrisias sociais vivendo na família Tufão.  A mãe Tufão, entre todos da família, era a que mais defendia a esposa do Tufão, católica, bem comportada e dissimulada; desse ângulo, a ex-faxineira era a mais hipócrita, pois propagava e determinava mais as vivências de convenções sociais hipócritas, ao mesmo tempo, que também mentia e enganava em nome do prazer sexual.
O argumento entre protagonista e antagonista propiciava uma relação entre Rita e Carminha de amor e ódio. O público no início da novela teve tanto ódio da Carminha de bater em criança e etc, que desejava a morte da vilã. No final da novela, esse ódio foi transferido para Nina, pois ela nunca tinha coragem de denunciar a inimiga, enrolava e se perdia no meio do caminho. Entre todas as personagens, era Nina/Rita quem conhecia mais a Carminha, mas tinha uma mistura de medo e respeito, no final da novela isso ficou mais claro com a cena do lixão e o almoço entre elas. Ambas tinham ódio e respeito.


Conclusão

Esse enfraquecimento do maniqueísmo pode significar uma mudança de estruturação das novelas brasileira. Uma nova maneira de ideologias políticas conservadoras entrarem na vida do cotidiano, isso se continuar mexendo com elas, trazendo elementos narrativos que são da modernidade literária. De brincar com o jogo entre protagonistas e antagonistas. Isso pode ser, por um lado, interessante de notar, afinal talvez o público estivesse cansado do argumento manjado e clássico. Ao mesmo tempo, esse elemento sedutor pode significar novas formas de explicar o status quo e mantê-lo assim sem luta e sem crítica. O que pode ser muito preocupante. Como diz um livro de Ventura (1968 o ano que não terminou), mas em outro contexto: a direita tá sendo mais dialética que a esquerda!.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Tagaralices


1

Na minha infância, uns vinte anos atrás, me chamavam de pentelha e tagarela, sempre recebi advertências de professores em casa, dizendo pra minha mãe que eu era terrível, não parava quieta. Não era muito entendida das palavras, não sabia o que significava a palavra “tagarela”.  Mas a primeira definição de tagarela que conheci era: “alguém que falava pelos cotovelos”.
O que covenhamos é absolutamente estranho. Cotovelos não têm boca. Como andava sempre com os meninos, (porque não gostava de brincadeiras de meninas, eram muito paradas e entediantes).  As minhas professoras sempre chamavam a minha atenção:
- ei menina, fica quieta...
Sempre chamavam a minha mãe.
- a sua filha não tem jeito, é uma pentelhinha!

2

- Pipa, você sabe o que significa inefável?
- inefável? Ô psora, o que é inefável?
- é algo que não se pode dizer
- ué, então diz,
Manias de coisas proibidas! Fiquei querendo saber o que não se podia dizer do Inefável, mas a professora me olhou com um rosto medonho e fui levada para Diretoria. Em casa, tinha uma advertência bem grande: “A sua filha precisa aprender a se comportar e não fazer mais perguntas indecentes!” . 
- que pergunta indecente você fez, Pipa?
- eu perguntei o que era inefável?
- filha que palavra é essa?
- então... a professora falou que não se pode dizer, então eu disse, ué então diz. Mamãe, a minha curiosidade aumenta quando as coisas não se podem dizer. Mãe, o que não pode dizer do inefável?
- filha, vai pro quarto!
- por que?
- você é muito perguntadeira!

3

Perguntadeira é sinônimo de tagarela? Afinal de contas, o que não se pode dizer do Inefável? E se for uma daquelas coisas de adulto, gente grande sabe! Os adultos são cheio dessas pilhas, tudo para eles é dicotômico ou, muito mesmo, generalizante. Por exemplo, a minha mãe vive falando pra mim que os homens são todos cafajestes. Se eles não são, vão ser um dia.  Adultos!
Afinal, não se pode falar do inefável, porque ele é feio. Tipo, o monstro do lago. O que há de estranho nessas palavras? Puxa, uma palavra tão bonita esconde uma coisa feia, igual o lago da minha casa! ( Eu preciso fazer uma pausa para explicar o monstro do lago. Na frente da minha casa, tem um lago bonito que a gente sempre brinca nele, um dia era quase noite, a minha tia tentou tirar a gente lá ( eu e a turminha!). Então, ninguém quis sair, até que ela nos convenceu que, a partir das sete horas, o monstro do lago ficava lá para comer criancinhas. É engraçado! Que depois mais tarde. Eu tinha dezoito já, fui tomar banho lá e não encontrei nenhum monstro do lago, já tinha passado das sete). Quanto ao inefável, acho que não dormi a noite, pensando nessa palavra, pensei procurar ela no dicionário. Mudei rapidamente de ideia. Uma palavra tão bonita não deveria estar nos dicionários, já que é feia para os adultos – porque grande parte deles não têm imaginação, - não será feia pra mim.  Quando se tem uma fôrma de bolo, a gente pode preencher com recheio que quiser, minha madrinha vivia falando isso. No vazio, sempre aparece o novo, é só não ter medo do erro. Nessa idade, a gente aprende algumas coisas. As perguntas nunca são inteiramente respondidas pelos homens grandes.


   4

Com dezesseis anos, li um livro de Bruna Landim, “Do verbo ser irregular”, que explicava o termo “Tagarela”.  A autora citava um trecho de Dostoievski ( esses malditos russos!) , do conto “O subsolo”, que trazia um narrador que dissertava sobre todos nós com teor negativo: “Não passo pois de um tagarela, de um tagarela inofensivo, de um impertinente como todos nós. Mas que fazer senhores, se o destino de todo homem inteligente é tagarelar, isto é, derramar água numa peneira”. 
Bruna Landim disse que, uma vez, percebeu a diferença entre gostar de um cara e não gostar. Gostava de um rapazinho, quando sentia vontade de conversar; não gostava do cara, quando sentia repentinamente o mutismo no seu coração. Ficava absolutamente fria, não emitia sequer um espirro.  Desse jeito, entendeu tudo que tinha que entender sobre linguagem, sendo tagarela quando criança e, absolutamente, muda e séria com alguns rapazes na juventude. Eu cito um trecho do romance dela: “A tagarelice é o uso da forma. O papeador sempre diz experiências em suas histórias, mesmo que elas sejam mentiras. Muitas vezes, o papeador é confudido com o tagarela. Mas quem não consegue notar a diferença disso, não consegue  aproveitar a graça da poesia cotidiana. Existem tagarelas que não pronunciam sequer um espirro de resfriado”.
Eu entendi tudo, lendo essa definição. Desde criança, eu era uma poetisa, a tagarelice escondia o mundo no meu coração. Era minha forma primitiva de lidar com a linguagem. Ser tagarela era uma maneira de lidar com o som, espontaneamente lidava com lado lúdico das palavras, não contava experiências, porque elas sempre nasciam  com uma aparência surrealista. Coisas de crianças! Se a gente continuasse com essa cabeça, com tanto despudor, o Picasso ficaria de cabeça em pé. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

À procura de amigos

Procura-se alguém pra conversar, normalmente eu converso com a parede do meu apartamento, mas ela não é muito conversadeira. A conversa vira um imenso monólogo, não avança e nem regride. Por isso, pode ser até uma alma ruim, mas alguém que possa me propiciar um diálogo.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Sedução


Dois olhos negros olham duas mãozinhas trêmulas. Nenhum dos dois recorda como começa um papo. Eu podia citar Spinoza, Engel e Hegel, posso até falar dos meus últimos trabalhos como pianista, será que eu chamo atenção dela? A mocinha não abre a boca, o que será que está passando na cabeça dela? Podia tentar adivinhar o pensamento? É! Assim, ela vai pensar que eu sou cara certo pra ela...
- a gente vai tomar cerveja? – disse ela
- sim, alguma preferência?
- pra mim tanto faz
Ela está tão bonita. O que será que ela quer comigo? Poxa!
- E então... e as suas canções?
- pois é, preciso mostrar pra você
Ela começa o papo e fica em silêncio. Esses olhos que olham trigueiros para a mesa, o chão e o céu. O que eles esperam do mundo? Queria tanto essa boca! O que será que ela está falando? Deve ser algum enigma, estou um pouco tonto com ela aqui. Essa menina pode falar palavrões terríveis na hora da cama, mas é apaziguado quando saem dessa voz doce. De novo. Ela ficou em silêncio. Vou ver se consigo adivinhá-la.
- Você tem, como chama mesmo?, acho que é complexo de alguma coisa, sabe?
- não sei. Do que você tá falando?
- Poxa, tem um livro, o Freud fala disso, é, como é o nome mesmo?
- complexo de Édipo
- Isso. Você tem Complexo de Édipo? Por isso, esse receio em assumir compromissos longos, os homens te assustam um pouco
Ela apenas balança a cabeça concordando.
- Tá bom! Tá bom! Vou parar de ler os seus pensamentos



Ler os meus pensamentos. Cada coisa! Será que esse cara não vai me levar pra algum lugar? A gente vai ficar aqui jogando conversa fora. Aí que vontade de não fazer nada!
- adivinhei o que você tava pensando
- uhum
Nunca vou entender. Caramba! Será que isso é coisa só de homens? Será que é só insegurança do primeiro encontro? Por que ele quer desvendar o mistério que existe dentro de mim? Não existe nada além. Só existe isso. Será que não é um misticismo que jogam nas mulheres, uma espécie de invenção dos mitos na sociedade. Eu não quero um homem que adivinhe os meus pensamentos, quero alguém que é tão banal quanto eu. No final das contas, o que existe é só uma pessoa, não quero que me transformem em musa. Elas (as musas) falam em enigmas, eu falo português, trazem o passado sedutor e atraem os viajantes com as suas vozes. Eu gosto mais de ouvir do que falar. Só quero mesmo que ele me leve pra cama e a gente namore bastante, afinal, é um modo de escapar do tédio que é morar nessa cidade. Que vontade de falar pra ele que a Esfinge é um mito, na frente dele só existe apenas uma mulher. Lá vai ele abrindo a boca.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Carta ao amigo: Felicidade, arte e outras besteiras



Meu amigo,

I
Gostaria de falar de mim. O tempo corre, pouco tempo temos e não nos vemos já não sei quanto tempo. Eu estou bem. Como anda as viagens? Como anda os filhos? Ainda é casado com a mesma pessoa? Está feliz? Não saberia nem começar as perguntas que eu tenho pra falar com você. Ficaria em silêncio se a gente marcasse um encontro qualquer pra conversar, ficaria ouvindo suas histórias, seus sonhos, realizações e mesmo decepções. Perdi prática com a fala, deixei de articular certas palavras, talvez deixei mesmo de acreditar.

Estou bem triste. Sinto saudades da sua companhia. O mundo é um imenso teatro, não sei se aguento viver com tantas mentiras, não ando suportando a personagem que inventei para mim. Meu sorriso é meio triste. Tem muito ator nesse redemoinho chamado mundo. Apesar de tudo, queria dizer que a minha saúde está boa; é que eu sinto falta mesmo de conversar com você. Mas o mundo moderno tirou de mim a capacidade de me comunicar com os outros, a estrutura social me ensinou a acostumar com certas infelicidades. Acho que nem conseguiria pronunciar a palavra: Bom dia!, se a gente marcasse um encontro.

O tédio tem sido meu grande amigo. Em tardes de domingo, noto-me um ser humano comum, um ratinho frágil, incapaz de liderar revoluções, principalmente, por medo. Ontem, eu sai com um rapaz, ele me propôs namoro, eu fiquei tão embrulhada com isso que resolvi não aceitar. Não consigo suportar a ideia de outro morando nesse apartamento, a minha louça suja e entre outras coisas. Deu-me certa ânsia, quis a solidão.

A solidão é o sentimento mais comum dessa modernidade. Não acho que na infância existe felicidade, nem tenho certeza que toda criança será adulto consequentemente. A vida adulta é uma invenção cruel, um padrão a ser seguido, um modelo já pré-postulado. Ao fugir da regra, nada me garante uma vida adulta serena e realizada; o que tenho por certo é uma vida incomum. No mínimo estranha. De uma certa liberdade ou felicidade que poucos sentirão inveja (é querido! Essa frase é conhecida da sua pessoa, certamente, culto como é, já reconheceu em um certo livro chamado “Perto do Coração Selvagem”, de Clarice Lispector, essa frase está no diálogo entre Joana e o Professor).  Essa escritora está muito na moda hoje em dia, até evito falar o quanto ela me influenciou. Ainda me influencia, as minhas leituras ficaram muito academizadas. De certa forma, virei uma chata. Você tinha razão, uma hora a minha insegurança mataria a minha alma de artista.

II

A arte é uma barbárie. Não consigo pensar nisso sem pensar em amor, angústia ou ódio (um pouco de frustração também). Desisti. Tento agradar demais os outros, não dá pra criar assim, tão atrofiada e frágil. Sinto saudades de conversar com você, uma palavra amiga qualquer entenderia algumas tristezas difíceis de elaborar verbalmente. O meu olhar no seu bastaria para o entendimento. Como artista, no mundo tão teatral, penso que a estética não mudaria o mundo, penso que já tem muitos, eu seria só mais uma. Não posso fazer mais nada de novo. A novidade hoje é o grande padrão, não suportaria ser nova o dia inteiro, sendo assim, tão absolutamente banal. Morreria de tédio.

Não quero ser artista. Prefiro ser professora para estudo infantil, viajante no mundo dentro de um carro ou mesmo uma cidadã brasileira comum inserida numa sociedade em que o paradigma é o consumo. Não estou feliz, porque abandonar essa ideia de inventar arte não tem sido fácil, mas a minha descrença é tão forte. É tão intensa. Não suportaria mais vender discursos de utopias pintadas de flores e construída por uma humanidade sonhadora. Devo discordar de muitos artistas por aí e dizer: a arte não basta, o homem precisa de mais.

III

No mundo sem Deus, fica difícil observar quem poderia estar altura dessa entidade. Já que a arte não é um inimigo forte suficiente. As musas seduzem a santidade de vez em quando, mas é tão rápido, que a santidade volta rapidamente viver a sua vida de caretices e crendinices. A hipocrisia esconde essa relação, nega o sexo. O mundo não para o tempo. O tempo é a única força que eu acredito.

IV

Meu amigo, as coisas estão duras em São Paulo. As mudanças podem acontecer, podem... Mas isso ainda não significa nada, a vida sempre será dura. Não se brinca com ela, se morre, se perde e envelhece. Eu estou triste e apreensiva, mas não quero conversar, só quero um amigo, me sinto um elefante, todo dia volto despedaçada e, cada dia, morre uma esperança. Fique bem, meu amigo, durma bem e tenha sonhos.

Sem mais,
De sua doce amiga,
M.M.