sábado, 26 de fevereiro de 2011

Bobagens

Quais são as coisas bonitas da vida? Aquela música que é interpretada pela Marisa Monte (não me recordo o título) que enumera uma série de doces: chocolate, brigadeiro e etc, tudo que há de proibido e gostoso no mundo. Eu vou lá.

A vontade que eu tenho de abraçar o mundo com duas mãos. A fome criativa.
O medo o empecilho
o jogo


PERIGO! Errou, perdi, fudeu
ainda não ainda não

Tem chance. Assiste a um filme - Que filme? - Titanic! (risadas). Ora, é romanticamente rídiculo, trágico, mas chorei que nem um bebê foi um marco histórico.

O navio afundou, Jack morreu.
A velhinha do Titanic só teve um anel para contar uma história, depois
morreu de ser tão velha e rica.

Vou ouvir Clair de Lune, a música me acalma tanto, vou pensar em lugares bonitos,
cantarolar, sonhar e fantasiar-me de azul.

Quero pipocas! Não se esqueça da manteiga, vou tirar o meu dia assistindo ao meu filme:
sonho meu sonho meu só
eu

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Outro blog

Inliterários e etc 
Blog assinado pela Bruna Landim
entrem e dirvitam-se!

Ano novo e tempo velho

Parece que quando a gente se torna um pouco velho mais essas datas comemorativas: natal e ano novo, perdem seus sentidos. A inocência de acreditar em um papai noel ou em esperar ansiosamente pelos presentes dos amigos secretos, resume-se a perceber pequenas pitadas de mesquinhez, de angústia e gastos com dinheiro.

Não esqueço da Tia J., mais velha, sentada com um vestido azul prateado, que só é vestido e preparado nessas épocas, e um novo penteado para tornar-se mais bela e especial nesse novo ano que vai entrar como um ponto de partida para um recomeço. Um processo de esquecimento da história que ela viveu até agora, com o seu marido que sofre com alcoolismo e seus filhos que insistem crescer depressa sem ela sequer ter a oportunidade de pentear o cabelo do menino de lado ou fazer uma trança para combinar com o vestidinho rosa da sua menina. Tia J. suspira silenciosamente sua angústia e toma um champanhe sorrindo com tal graça de jilô mal feito, ela chega, então, a dolorosa sensação que perseguia com bastante frequência ano passado: todo dia é dia para envelhecer.

Olho, com delicioso, cuidado e vejo frutas que são devoradas por quase todos convidados, mas comidas e carnes tão bem cozinhadas pelos anfitriões que mal são vistas por eles e visitantes. Eu também passo pelo banquete e finjo não notar a presença de tantos alimentos, sorrio, tomo mais um refrigerante e roubo da mesa algumas uvas. Ao lado, um casal namorando despreocupadamente e esperando a hora de explodir os fogos, os beijos e a meia-noite, sinto um pouco de mal estar, confesso que é uma pintada de inveja.

Aproxima-se o Tio W. que me faz as mesmas perguntas de sempre: como andas os estudos? como andas os namoros? como andas seus pais? (pergunta dita com bastante discrição, já que nele existe uma terceira intenção que é saber do relacionamento, já maltratado, dos meus pais. Ele é o tio que torce pela separação dos dois, tenho impressão de que ele paquera minha mãe) Como andas seu irmão? Corto-o elegantemente e me dirijo a um dos meus primos que há muito tempo não converso. Mas a discussão também é infrutífera, pois o papo não sai dos conselhos moralistas que se fazem a caçula da família; escuto-lhe mesmo assim, permitindo que ele me ensine algo.

A meia-noite chega veloz, nada faz mais sentido. Costumo chorar sempre nesses momentos, quando percebo não somente a minha mediocridade, mas também a alheia! Sorrio angustiada. Com lágrimas alegres nos olhos, eu corro em direção ao quintal. Faço um leve balanço com a rede, me sinto bem, esse é o único momento que posso chorar por envelhecer cada dia mais e ficar sozinha com as minhas retrospectivas do ano.

sábado, 27 de novembro de 2010

A história das peles

Andréa sai do banheiro e se encontra com o espelho.
Nesse encontro, ela faz uma viagem e uma retrospectiva da
vida que teve com seu marido, a infância de ladra de mexericas
e os dois partos que teve no ventre.



Ela saiu do chuveiro e trombou-se face-a-face com uma imagem muito parecida dela. Após o banho, as mãos e os olhos examinaram os detalhes que eram idênticos: a maçã protegida por seu rosto meigo, as bochechas abertas em um falso sorriso, os cílios tão maiores que os seus olhos e concerteza mais delicados que a própria retina, as belas e negras sobrancelhas desenhadas propositalmente acima dos olhos castanhos como uma dama lunar. Essa imagem era tão estranhamente mimética; porém, havia nela uma estranha assimetria do que Andréia pensava que era o corpo físico dela e do que realmente ele era.

Andréa nunca havia ficado observando, em frente do espelho, os seus detalhes em um período tão duradouro. Assustada e maravilhada, ela suscitava nas formas que a pele desenhava algumas lembranças, iniciando pela cicatriz que marcava as cochas. Houve uma lembrança carnal enquanto tocava a cicatriz, Andréa sentiu: “Ah, eu corria que nem uma gazela alegre e magricela; o vento disputava comigo a corrida, às vezes eu era rápida, às vezes era ele. Mas, - como hoje isso me assusta - eu não tinha medo de nenhum muro titânico, pulava e enfrentava árvores, dragões e broncas da minha vó com tanta naturalidade cruel que sempre existiu em mim. Quando a vovó se aproximava de mim para brigar, eu sorria toda melada de suco de mexerica e ainda oferecia para ela, como se dissesse: você quer?”. Andréa sorria de alegria, quase chorando, gostava das saudades que tinha do seu corpo moço. Aquela cicatriz era um símbolo dos roubos das mexericas e os cuidados que a vovó tinha com ela; uma vez ela pulou o muro e se machucou, a vovó ia brigar com Andréa pela falta de responsabilidade, mas vendo-a, não teve forças de ficar brava e cuidou da cicatriz das cochas. A vovó limpou a cicatriz e sarou-a com os remédios caseiros enquanto, ao mesmo tempo, contava histórias românticas dos namorados lunares que cantavam serenatas e declarações de amor.

Ela apertava essa cicatriz que já nem doía mais, ainda sentindo a dor de meninice quando tinha se machucado. O sangue luminoso, vívido e vermelho que saltava os olhos dela e fazia sentir medo e dor. Certa vez, Andréa sentiu vergonha dessa cicatriz de ladra de mexericas, principalmente, quando trocava-se de roupa em frente das meninas que faziam natação com ela; pois, ela tinha que sempre explicar o motivo da cicatriz nas cochas e compará-la com uma cocha lisa. Todavia, não havia motivos de vergonha, hoje, com cabelos brancos, enfrentando esse mesmo espelho de anos, já não se importava que um dia essa cicatriz era motivo de vergonha na infância e puberdade. Ria dela, sem ódio e angústia, mas com uma alegria de saudades.

Os dedos, que alisando a cicatriz, subia levemente até o umbigo, - o ponto central que dividia o norte e o sul delimitando o ventre tal lugar que lhe proporcionou diversos prazeres. Ela imaginou novamente seu marido já falecido quando ele encostava seus dedos no umbigo e cobria-lhe de tantas intensidades de beijos. Mais tarde, era o ventre que protegeria a filha e negaria um filho, lá seria o palco para um parto e um aborto. Foram duas dores bastante parecidas, no entanto, a primeira dor foi uma vida e a segunda dor foi só sangue. Em ambas, o sangue escorreu com pressa, mas, no aborto, esse sangue fugia do ventre e criava uma cicatriz lá dentro. A dor ainda existe. Quando ela aperta no ventre sente a sensação do filho que é só sangue. Não é igual a dor da cicatriz de ladra de mexericas tal machucado tão amostrado para o mundo, a dor do aborto criou uma cicatriz no ventre que ninguém vê nem Andréa. A dor do aborto é abstrata.

Levando as mãos até o peito relembrou-se, então, do seu falecido marido. Ele retornava do trabalho quando dois rapazes abordaram na saída do metrô e pediram dinheiro, carteira e celular, como ele estava sozinho, deu tudo aos rapazes. Próximo à entrada do metrô, havia dois policiais que, vendo a confusão, correram para pegar os vagabundos e vadios. O primeiro rapaz foi atingindo por treze balas pelo policial da esquerda: uma acertou o ar, duas, três, quatro, quinta foi o braço, sexta peito, sétima cabeça, oitava, nona, décima era o sangue do rapaz, décima primeira era vontade de matar, décima segunda era ódio e vaidade, décima terceira era nada. O segundo rapaz que não correu fez do marido de Andréa seu refém, o marido estava assustado e tinha problemas cardíacos, morreu nos braços do rapaz jovem, não foi nem por causa de tiros, mas sofrendo um enfarte. O policial não socorreu-o, prendeu, primeiramente, esse vadio e ladrão mais jovem.

Andréa assistia a novela das sete quando telefonaram-na. Ela desmaiou no sofá; Lúcia, a filha de Andréa, socorreu-a com grande tranquilidade, oferecendo um comprimido e um copo d’água com açúcar. Andréa não acreditava na notícia que recebera, o marido dela estava morto; quando ela foi até o hospital, ele estava pálido e com o peito aberto (aquele peito aberto que havia deitado dias atrás, Andréa quis morrer ao lado dele). Tiveram que retirar Andréa no quarto, estava-a descontrolada. O último momento dela com seu homem fora um abraço que deu-lhe peito-a-peito, era como uma ação de nostalgia que tiveram na juventude e na velhice que viveram. O peito que ela dormiu deitada, colando a orelha nos pêlos, o peito que a protegeu da cicatriz do ventre e de tantas outras que a vida lhes concebera, aquele peito. Ele foi embora e deixara apenas esse peito.

- Já não me olho com pressa como antes eu olhava na minha meninice que nem olhava, apenas passava diante do espelho e saia pulando para brincar. Já perdi os motivos de me enxergar no espelho com ódio e angústia, com raiva de não saber quem eu sou, com aquela lentidão de cientista que se examina para encontrar um universo de sentidos. Se fustando, porque não encontra sequer um sentido para existir e revoltando-se como uma criança rebelde. Amaldiçoado e maldizendo esse corpo estranho que se redesenhou na puberdade e na vida. Já não perco o meu tempo com as bobagens de moça que se arruma para um homem depois dessarumá-la no quarto a sós – aí bons tempos!. Hoje estou aqui, olhando outra vez essa imagem estranha que ainda não se perdeu e se deformou criando isso. Enxergo a minha história inteira desenhada na pele, nas minhas estrias, no rosto e nos quadris. Não consigo fugir do que nunca me tornei e do que me tornei.

A filha de Andréa já lhe dava dois netos que sentavam no colo dela. No mesmo colo em que Andréa deu de mamar para a filha, em que deitou a cabeça do marido falecido e ouvia encantada a respiração dele. Agora é outro colo que conta histórias aprendidas com a vó antiga e que brinca com os netos. Hoje é outro corpo que é dela, mas mais amado e rabiscado.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Anotações no caderno das nove

Ultimamente. Ando caminhando bastante, ouvi uma música que relembrou os meus velhos tempos. Não. De súbito. Vi uma laranja amarela, será que estamos nos tempos das laranjas?; a terra queima os pés, sonhos com frutas. Ouvi "comes love", - oh my god! - meu inglês é péssimo. Se eu falasse um bom inglês me dedicaria as músicas da Lady Day.

what am I doing? Nada. Nothing. I think just the love is a strawberry fruit. Acho que não falei nada com nada, nem sei se escrevi algo lógico com esse inglês absurdo. Prometo aprender a pensar em inglês. Promessa para o próximo ano!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O estranho observador

O espelho conta sobre as suas observações
do Augusto; este último, há trinta e sete anos,
é o dono da casa que o espelho reside.
Augusto é um escritor frustrado e vive sozinho,
não tem filhos nem esposa,
apenas sobrinhos.


Eu sou o espelho. Fico pendurado numa parede verde na casa de um senhor bem velhinho chamado Augusto. Ele é um senhor sozinho de 57 anos, comprou essa casa quando estava na aurora dos vinte anos (eu tenho a pequena impressão que Augusto gosta da cor verde, porque a casa inteirinha é pintada assim). Morador dessa casa há trinta sete anos, Augusto nunca se casara ou tivera filhos, não lembro-me de nenhuma visitante feminina que roubou o meu olhar na minha pele refletida. Também pudera! Augusto era um moço estúpido, desinteressante e feio. Atualmente tornou-se um velho beberrão e grosseiro. Lembro-me desses detalhes e dito-lhes com precisão desde que eu percebi a minha existência nessa casa mono-colorida, - inteiramente verde.

Por todos cantos dessa casa, existem livros e cadeiras espalhadas. Augusto nunca pareceu-me muito organizado; os seus cadernos, - porque ele é um escritor, - têm cheiro de uísque, sujeira de cafeína e manchas do Malboro. Ele fuma muito. E também bebe bastante.

Uma vez houve uma ocasião da qual ele, bêbado, quebrou os meus vidros (foi muita falta de delicadeza!), jogando em mim uma cadeira. Os meus restos de cacos de vidro nervosamente atacaram, com um corte incisivo e sangrento, as suas mãos; essa cicatriz que existe na palma da mão direita fora fruto do nosso conflito naquela noite. Augusto foi muito indelicado (Poxa! Ele falou para mim que eu era invejoso, justo eu) e disse-me que eu o imito. Entretanto, não sou eu o imitador, sou naturalmente o imitante. Augusto é que repete tudo que existe no meu campo de visão restrito a um foco delimitado pelo espaço; tudo que eu vejo e enxergo só depende de Augusto, pois é ele que prepara o pensamento, fala o que eu não consigo oralizar e possui liberdade de experimentar qualquer ação. Infelizmente, essa liberdade humana eu não tenho. Mas, por falta de alguém para conversar, esse velho beberão joga-lhe a raiva em mim, fica irritado, porque não consegue ser um escritor original e destrói todos os meus cacos por causa de sua frustração literária.

Esses seres chamados Homens são realmente estranhos, sempre necessitam culpabilizar algum outro pelos seus próprios atos de incompetência. Por acaso, quebrar-nos vai mudar a condição de incompetência literária deles? Mesmo nós, que somos da espécie dos espelhos, acabamos quebrados por causa de ações odiosas dos Homens, ora nem fizemos nada para eles. Os cacos, tão bonitos, quebrados e espalhados pelo chão, - nossa como dói! - Jogam-nos (nós, os espelhos, que só observamos objetos e ações) com bastante facilidade as cadeiras, copos e outros instrumentos bélicos, ainda assim, os homens não aprendem, eles não pensam nas consequências dessa atitude e na dor que todos vão sentir com os cacos espalhados pelo chão. Nessas ocasiões só é possível uma troca justa: um espelho quebrado e uma mão sangrenta. Latejante de dor.

Quebrar as espécies alheias é mais fácil do que encarar os problemas. Augusto é incapaz de escrever duas linhas de prosa. Ontem, ele leu alguns versos de Baudelaire em voz alta na Língua Francesa. Tão bonitinhos, tão bonitinhos são os versos: “enivres-vous; enivres-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise". Enquanto as horas passavam, esse velho beberão embriagava-se de uísque e ria alto com a poesia gritando-a: Enivres-vous! Enivres-vous! Não sabia o que significavam essas palavras francesas, os sons que a boca de Augusto produziam eram bonitos e, para mim, os sons já bastavam. O velho beberão tornava-se uma criança brincalhona quando lia as prosas poéticas de Baudelaire, inspirado e bêbado, soltava um riso de lágrima por não conseguir imitar os poetas malditos e esplêndidos. Nenhuma linha de prosa. Nada. Folha vazia.

O escritor chorou tanto porque não conseguia escrever, ficou sentado horas, olhando aquele vazio. Depois, ele virou-se para mim e encarou-me. Pela primeira vez, Augusto se identificou comigo... Até sorriu! Me lembro de seu sorriso triste, vindo na minha direção e as lágrimas misturadas com saliva e uísque. O velho beberão sem camisa, gordo, pêlos brancos no peito, plácido, caminhando até mim e sorrindo. Eu também sorri de volta, já criando uma simpatia, até que ele ficou próximo demais do meu corpo. Nós ficamos muito tempo nos encarando, então, esse velho pegou um copo e jogou em mim (sem dó e nem piedade!). Fiquei nervoso, mas não me quebrei por causa do copo. Não bastando, esse beberão jogou-me uma cadeira; mas, dessa vez, não pude controlar, quebrei-me a parte direita que é o braço dele. O rosto do Augusto estava quase rachado, venho, então, uma outra cadeira e quebrei a parte esquerda que é outro braço dele. O rosto estava inteiramente arrebentado. Por último, Augusto jogou-me uma garrafa de uísque, foi quando eu resolvi quebrar-me inteiramente  para que esse velho pagasse, com o seu sangue, o estrago do meu corpo.

No entanto, ele culpa a mim pela incompetência literária dele e chamou a mim de invejoso! Invejoso. Antes disso, eu até gostava dele, mas agora eu o detesto; demonstro o rosto desse velho beberão deformado e rachado. Augusto nunca arrumara essa casa, escolheu deixá-la para as moscas e ratos. O verde das paredes é a cor bonita que hoje existe no meu reflexo e demonstro com carinho, pois  Augusto atualmente tornara-se apenas uma imagem deformada.


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Poema delicado

Um poema rapidinho

queijadinho e
açúcar café

poeminha
feito com pressinha
e voando as palavras
com assinhas
                 
                      de explosões


cafeína
dura e forte
nicotina
que me queima
toda a palavra
amiúde e pequena
mata


mesmo um poeminha
simples delicado
inocente e – aparentemente – sem pecado
assassina
todas minhas
conformidades
                
                              de emoções


mesmo um poeminha
todo jovem e inteirinho
estraga