terça-feira, 16 de outubro de 2012

Sedução


Dois olhos negros olham duas mãozinhas trêmulas. Nenhum dos dois recorda como começa um papo. Eu podia citar Spinoza, Engel e Hegel, posso até falar dos meus últimos trabalhos como pianista, será que eu chamo atenção dela? A mocinha não abre a boca, o que será que está passando na cabeça dela? Podia tentar adivinhar o pensamento? É! Assim, ela vai pensar que eu sou cara certo pra ela...
- a gente vai tomar cerveja? – disse ela
- sim, alguma preferência?
- pra mim tanto faz
Ela está tão bonita. O que será que ela quer comigo? Poxa!
- E então... e as suas canções?
- pois é, preciso mostrar pra você
Ela começa o papo e fica em silêncio. Esses olhos que olham trigueiros para a mesa, o chão e o céu. O que eles esperam do mundo? Queria tanto essa boca! O que será que ela está falando? Deve ser algum enigma, estou um pouco tonto com ela aqui. Essa menina pode falar palavrões terríveis na hora da cama, mas é apaziguado quando saem dessa voz doce. De novo. Ela ficou em silêncio. Vou ver se consigo adivinhá-la.
- Você tem, como chama mesmo?, acho que é complexo de alguma coisa, sabe?
- não sei. Do que você tá falando?
- Poxa, tem um livro, o Freud fala disso, é, como é o nome mesmo?
- complexo de Édipo
- Isso. Você tem Complexo de Édipo? Por isso, esse receio em assumir compromissos longos, os homens te assustam um pouco
Ela apenas balança a cabeça concordando.
- Tá bom! Tá bom! Vou parar de ler os seus pensamentos



Ler os meus pensamentos. Cada coisa! Será que esse cara não vai me levar pra algum lugar? A gente vai ficar aqui jogando conversa fora. Aí que vontade de não fazer nada!
- adivinhei o que você tava pensando
- uhum
Nunca vou entender. Caramba! Será que isso é coisa só de homens? Será que é só insegurança do primeiro encontro? Por que ele quer desvendar o mistério que existe dentro de mim? Não existe nada além. Só existe isso. Será que não é um misticismo que jogam nas mulheres, uma espécie de invenção dos mitos na sociedade. Eu não quero um homem que adivinhe os meus pensamentos, quero alguém que é tão banal quanto eu. No final das contas, o que existe é só uma pessoa, não quero que me transformem em musa. Elas (as musas) falam em enigmas, eu falo português, trazem o passado sedutor e atraem os viajantes com as suas vozes. Eu gosto mais de ouvir do que falar. Só quero mesmo que ele me leve pra cama e a gente namore bastante, afinal, é um modo de escapar do tédio que é morar nessa cidade. Que vontade de falar pra ele que a Esfinge é um mito, na frente dele só existe apenas uma mulher. Lá vai ele abrindo a boca.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Carta ao amigo: Felicidade, arte e outras besteiras



Meu amigo,

I
Gostaria de falar de mim. O tempo corre, pouco tempo temos e não nos vemos já não sei quanto tempo. Eu estou bem. Como anda as viagens? Como anda os filhos? Ainda é casado com a mesma pessoa? Está feliz? Não saberia nem começar as perguntas que eu tenho pra falar com você. Ficaria em silêncio se a gente marcasse um encontro qualquer pra conversar, ficaria ouvindo suas histórias, seus sonhos, realizações e mesmo decepções. Perdi prática com a fala, deixei de articular certas palavras, talvez deixei mesmo de acreditar.

Estou bem triste. Sinto saudades da sua companhia. O mundo é um imenso teatro, não sei se aguento viver com tantas mentiras, não ando suportando a personagem que inventei para mim. Meu sorriso é meio triste. Tem muito ator nesse redemoinho chamado mundo. Apesar de tudo, queria dizer que a minha saúde está boa; é que eu sinto falta mesmo de conversar com você. Mas o mundo moderno tirou de mim a capacidade de me comunicar com os outros, a estrutura social me ensinou a acostumar com certas infelicidades. Acho que nem conseguiria pronunciar a palavra: Bom dia!, se a gente marcasse um encontro.

O tédio tem sido meu grande amigo. Em tardes de domingo, noto-me um ser humano comum, um ratinho frágil, incapaz de liderar revoluções, principalmente, por medo. Ontem, eu sai com um rapaz, ele me propôs namoro, eu fiquei tão embrulhada com isso que resolvi não aceitar. Não consigo suportar a ideia de outro morando nesse apartamento, a minha louça suja e entre outras coisas. Deu-me certa ânsia, quis a solidão.

A solidão é o sentimento mais comum dessa modernidade. Não acho que na infância existe felicidade, nem tenho certeza que toda criança será adulto consequentemente. A vida adulta é uma invenção cruel, um padrão a ser seguido, um modelo já pré-postulado. Ao fugir da regra, nada me garante uma vida adulta serena e realizada; o que tenho por certo é uma vida incomum. No mínimo estranha. De uma certa liberdade ou felicidade que poucos sentirão inveja (é querido! Essa frase é conhecida da sua pessoa, certamente, culto como é, já reconheceu em um certo livro chamado “Perto do Coração Selvagem”, de Clarice Lispector, essa frase está no diálogo entre Joana e o Professor).  Essa escritora está muito na moda hoje em dia, até evito falar o quanto ela me influenciou. Ainda me influencia, as minhas leituras ficaram muito academizadas. De certa forma, virei uma chata. Você tinha razão, uma hora a minha insegurança mataria a minha alma de artista.

II

A arte é uma barbárie. Não consigo pensar nisso sem pensar em amor, angústia ou ódio (um pouco de frustração também). Desisti. Tento agradar demais os outros, não dá pra criar assim, tão atrofiada e frágil. Sinto saudades de conversar com você, uma palavra amiga qualquer entenderia algumas tristezas difíceis de elaborar verbalmente. O meu olhar no seu bastaria para o entendimento. Como artista, no mundo tão teatral, penso que a estética não mudaria o mundo, penso que já tem muitos, eu seria só mais uma. Não posso fazer mais nada de novo. A novidade hoje é o grande padrão, não suportaria ser nova o dia inteiro, sendo assim, tão absolutamente banal. Morreria de tédio.

Não quero ser artista. Prefiro ser professora para estudo infantil, viajante no mundo dentro de um carro ou mesmo uma cidadã brasileira comum inserida numa sociedade em que o paradigma é o consumo. Não estou feliz, porque abandonar essa ideia de inventar arte não tem sido fácil, mas a minha descrença é tão forte. É tão intensa. Não suportaria mais vender discursos de utopias pintadas de flores e construída por uma humanidade sonhadora. Devo discordar de muitos artistas por aí e dizer: a arte não basta, o homem precisa de mais.

III

No mundo sem Deus, fica difícil observar quem poderia estar altura dessa entidade. Já que a arte não é um inimigo forte suficiente. As musas seduzem a santidade de vez em quando, mas é tão rápido, que a santidade volta rapidamente viver a sua vida de caretices e crendinices. A hipocrisia esconde essa relação, nega o sexo. O mundo não para o tempo. O tempo é a única força que eu acredito.

IV

Meu amigo, as coisas estão duras em São Paulo. As mudanças podem acontecer, podem... Mas isso ainda não significa nada, a vida sempre será dura. Não se brinca com ela, se morre, se perde e envelhece. Eu estou triste e apreensiva, mas não quero conversar, só quero um amigo, me sinto um elefante, todo dia volto despedaçada e, cada dia, morre uma esperança. Fique bem, meu amigo, durma bem e tenha sonhos.

Sem mais,
De sua doce amiga,
M.M. 

sábado, 29 de setembro de 2012

Domingo em família


Tchebutykin

É bem possível... O relógio da mamãe é o relógio da mamãe. Aliás, talvez eu não o tenha quebrado de verdade, mas sim aparentemente. Pode ser até que... Nós mesmos só existamos aparentemente e que, na realidade, nada sejamos. Nada sei e ninguém sabe nada. [...] Que há comigo para que me olhem assim? Natacha tem um arranjozinho com Protopopov e ninguém vê... Estão aqui e nada veem...E, enquanto isso, Natacha tem um arranjozinho com Protopopov...

(As três Irmãs, de Tchekhov)

Paredes brancas. No canto da sala, uma cadeira de balanço vazia. Um homem sério atravessa a sala, observa Carlos e Maria sentados no sofá vermelho, rindo descuidadamente sobre assuntos banais. Toninho entra pela porta da frente e grita no ouvido de Carlos:
- Eh! Corinthias é campeão da libertadores!! É campeão invicto!
Maria sorri. Carlos se irrita e inicia a discussão entre os dois homens da sala. O primeiro falando sobre as características que induzem a acreditar que a libertadores foi paga pela Diretoria do time corinthiano, afinal esse time está dentro da máfia futebolística; o segundo defendendo categoricamente o valor político e libertário do timão. O homem sério não é afetado pela conversa, senta na cadeira de balanço.
Acima deles, um relógio ditando o horário. Daqui a pouco, começa o horário para o início das pegadinhas do Faustão. As crianças correm em círculo, muitos gritos misturados, um pequeno coro contra a torcida do timão também é formado, logo em seguida, acontece a reação, outro coro faz a apologia do campeão da Libertadores: “aqui tem um bando de loko!”. A confusão é armada, alguns afirmam que o único time que não pode marcar impedimentos é o Corinthians, o tiozinho grita: “tá bíblia, não existe impedimento pro Corinthias”. E o relógio pendurado na sala dita as horas. O homem sério não escuta as vozes da multidão, instaura a invenção do homem burguês, preso na sua personalidade e inventor da singularidade do seu pensamento próprio, independente da massa. Ele é um homem, o relógio não sente pena de homens, não sentirá pena de apenas um homem.
Maria foge da confusão e caminha em direção a cozinha, as mulheres da família preparam a feijoada de domingo. Os homens e algumas mulheres entendidas desses assuntos futebolísticos permanecem com a discussão, nunca acabada e interminável, sobre as maravilhas do Timão e os predicados sociais que a seita anti-corinthiana denota sobre os torcedores. No futebol, o melodrama é lei, tudo é motivo para criar vilões, loucos e mocinhos.  O homem sério grita. Ninguém escuta. As pessoas, que entram aos poucos na sala, estão preocupadas com o debate entre as prerrogativas futebolísticas, não existe verdade no futebol, existem paixões. Torcedores parecem críticos literários, a briga entre os pareceres da literatura clássica não é uma questão racional, tudo passa pelo gosto, é o embate técnico de paixões desenfreadas postas em campo de batalha. São heróis brigando por heróis. Ninguém quer ouvir um homem sério, todos querem ser ouvidos ao mesmo tempo.
O homem sério fica mais sério. A multidão fica ainda mais fervorosa. Toninho pega o relógio na parede e discursa apaixonadamente sobre as qualidades de ser um torcedor de coração, sem corinthias ele preferiria morrer a estar vivo. Os torcedores apoiam com urras, algumas vaias também são escutadas. O homem sério emudece, ficando cada vez mais sem palavras. Toninho e Carlos brigam para ter a posse do relógio, nenhum dos dois consegue, o relógio cai ao chão. Só a voz do homem sério ecoa na sala:
- em migalhas! (ele chora)
Maria e Anita, que preparavam a feijoada, entram na sala e nota o homem sério em prantos calorosos.
- o relógio da mamãe quebrou – diz Anita
- culpa é desses fanáticos!
Maria apanha as migalhas do relógio, Anita tenta acalmar os ânimos das pessoas presentes na sala de estar. As crianças correm em volta do homem sério, inicia timidamente a discussão sobre futebol, Anita ordena que os homens acalmem os ânimos. O homem sério não é ouvido, recolhe as migalhas e sobe para o quarto. Não existe mais relógio que dita a regra para homens que sabem o que querem quando enfrentam o mundo. 

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Crepúsculo Vermelho


(Breve reflexão sobre a Nova Ordem Mundial)

Nada se retoma, tudo é perdido
o tempo engole o mundo
encolhe
segundos

nada é como antes
mesmo a minha tristeza
amanhece mais triste
entristece o entardecer
muda

tudo se perde, ganha o presente
desconsolo primeiro de que o tempo
já é perdido

a nova ordem do mundo
fronte crepuscular
matando o ocidente
o novo sol poente é vermelho

o antigo crepúsculo que também era vermelho
cai em ruínas modernas, prédios terríveis
(mais feios que as ruínas no museu romano)

nada é igual, tudo se repete
o indivíduo se perde
o tempo engole multidões
nenhuma ideia nova de nação
Brasil, uma nova interrogação

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Um homem sem sobrenome


Olhar de seriedade. Às cinco e meia da tarde... Ele olha, ela não tem certeza. Eu como os restos de amendoim sobre a mesa, nenhuma leitura me fez ter ideia correta de uma possível felicidade nesse mundo (quem sabe ela existe em outros planetas?). Aí! – respiro fundo – como seria bom ter um amozinho pra acordar. Cinco e trinta um. O sol perde a cor; a sombra engrandece timidamente. O olhar de seriedade some, o casal na minha frente se entrega ao um beijo profundo. Paro de observá-los.
Meu olhar de vazio enxerga pouco. A fumaça do homem bigodudo inebria o ar, me recordo de uma definição de felicidade em um conto que eu li. Certamente, era de um amigo carioca. Ao fundo, uma música bem sugestiva: “rompi tratados, traí os ritos/ quebrei a lança/ lancei no espaço/ um grito, um desabafo” [Sangue Latino. Ney Matogrosso] . O meu vazio encontra um pouco de música para preencher, a vida sem música não tem a menor graça. Podem faltar pintores, peças de teatro, livros e poesias, mas a música! Não. 
Um homem se aproxima, eu cumprimento. Ele me pergunta se eu tenho fogo, acendo o cigarro dele com um isqueiro. Nós começamos a papear, eu não falo muito, deixo que o homem sem sobrenome faça o seu discurso.  O homem é professor de história, fala um pouco da época de 1964, outro pouco da traição de Lula, outro pouco nas mortes que viu quando os seus tios, militantes do PT, morreram para construir o partido que hoje está no poder. Um rapaz de dezoito anos se aproxima e diz:
- “agora, com gente jovem no PT, as coisas vão mudar. Eu vou ajudar a fazer um novo PT”.
-  “ Cala a boca! Lave essa boca pra falar no PT, você não sabe o que significa o PT, você não sabe o que é ver um amigo seu levar um tiro por causa desse maldito partido. Você não sabe nada”
- “ mas...”
- “ O PT me traiu, traiu os seus mortos quando subiu ao poder. Você não sabe nada.”
- “ dá pra mudar...”
- “ Cala boca! Lave essa boca pra falar desse partido, os nossos mortos estão sepultados pra história”
- “eu...”
-“ vai tomar no cú!, sai daqui!”
O rapaz saiu nervoso, batendo o pé nas cadeiras da frente. O homem jogou um copo plástico perto da cabeça dele; então o outro mais jovem, também nervoso, reagiu: “seu velho... vá pra puta que pariu! ”. O homem sem sobrenome olhou pra mim, algumas lágrimas adornavam os cílios e perguntou:
- “ você tem mais fogo?”
- “tenho”
Acendi. Ele tragou e saiu cambaleando até o banheiro. Eu não tinha o que falar; o que eu poderia falar? Fiquei silenciosa. O meu silêncio é trevas escondidas que desconheço, não sei exatamente o que pode resultar nesses demônios que não gostamos de cutucar, acostumam-se no escuro e sonham com a claridade mais fresca, serão violentos quando o sol iluminar os olhos acostumados com a sombra. O silêncio virou, a pouquíssimos segundos atrás, o meu melhor amigo.  

II
Depois, a noite ganhou corpo. As pessoas que se acostumaram viver nela, foram encontrando as posições nesse espaço, estavam preparadas para o encontro. Eu, acostumada com o não, me perguntei qual era a hora do sim? Uma moça sentou ao lado da minha mesa e falou:
- “ você sempre vem aqui”
- “sempre”
-“ fica aí olhando, está esperando alguém”
- “não, estou olhando o tempo”
-“ tá um calorzinho bom, né! Você não é daqui né!”
- “ sou sim”
- “ mas e esse sutaque?”
-“ é inventado. Me conte, você está com o seu namorado?”
- “ estou, ele tá no banheiro. Era um rapaz que tava conversando com você, pediu fogo e tudo, sabe?”
- “ Ah sei!..”
O homem sem sobrenome voltou com óculos escuros, começou a brigar com a moça. Ela pediu desculpas e também saiu nervosa. Sete e vinte e cinco. E hoje, já vi duas brigas com esse mesmo homem. Um olhar doce fita meus olhos, não respondo, ofereço outro cigarro.
- “acho que acabamos esse namoro, menina fresca! Você é bem calada. É melhor, quem fala demais, acaba falando besteira. Sabe como você consegue respeito, sabendo pouco e sendo burro. Mediano o suficiente para não se destacar em público! Pessoas originais demais é sempre um peso. Um peso pra sociedade. Um peso pros apáticos. Um peso pra ela própria. Eu sei que sou um peso, minhas palavras são rancorosas. “Todo poema tem os seus lobos”. Essa menina que eu tava comendo, não ia suportar ficar comigo mais um dia, é até melhor pra ela. O sonho dela é ser digna. Ela ainda não descobriu que a dignidade é a maior ilusão da sociedade, é um conto de fantasia, o demônio sempre pega na nossa mão”
- “você tá precisando de alguma coisa?” – eu fiz uma pergunta idiota, ele não estava precisando de nada. Era alguém querendo falar.
- “ eu sou um merda, você é um merda porque não fala o que sente e esses merdas controlam a nossa sociedade, porque merdas como você não quer abrir a boca. Quer ficar aí, calado, respirando a podridão dos outros”
Onze horas. Nós engolimos um pouco de saliva, eu ia dormir culpada e perdida. Se não tivesse uma insônia e uma vontade iminente de...Sei lá o quê. 

domingo, 16 de setembro de 2012

Do conceito Deus e Política


Der note thu sei di pummm
Bikausi der uordi is beautiful
Der boquis on der taiblou is
Very very nice
Ai nouw que os God is very lindiu
Bute, note mistaque os God cristão uiti
As politiquices
Becausi, hipocrisei is very badi
No faça this
Mano, o teu the God is invisible,
Note precisa control uiti mãos very poderosas
Os godes dos mercados
your cocô is note many fedido que 
tua hipocrisia política 
e your blazé of Brazil 


Certo mano! – tenho dito, referências bibliográficas:
Hegel
Grande Otelo
Kant
Alexandre Pires
Menudos
Machado de Assis
Santo Agostinho 

Desabafo sobre o andamento de um certo texto não escrito: Do tratamento sobre o tempo presente em outros processos dramatúrgicos


Casos dramatúrgicos: Nora e Édipo
Eu vivendo nessa modernidade, insisto como uma adolescente babaca em afirmar o meu lugar na estante desses livros clássicos. Mas não estou aqui para discutir a tradição, ela existe e nela encontramos valores da nossa tradição e da nossa cultura. Estive nesses intervalos, repensando as dramaturgias de Nora (Casa de Boneca, de Ibsen) e Édipo (Édipo rei, de Sófocles).
A experiência de Édipo inicia na ignorância e na necessidade de responder uma pergunta: quem foi o assassino do antigo rei de Tebas, o que até então não sabido por ele diante do início da investigação, que Laio era o seu pai. O processo de investigação faz com que ele encontre pistas as quais vão se aproximando mais perto do verdadeiro criminoso pelas pestes que amaldiçoaram a cidade de Tebas, o próprio Édipo rei, tirano e bom senhor de todos; na realidade, também fizera essa atitude terrível e não se recordara desse passado, era ignorante do seu próprio destino. Édipo acaba despertando o monstro que ele não sabia que existia nele, o assassino do seu pai e o amante da sua mãe. Um homem culpado, portanto o destino dele é o exílio de Tebas.
A experiência de Nora inicia na proteção e na calmaria do seio do lar e da família burguesa, esposa do diretor de um banco, ela que come caramelos escondido e mente descaradamente para o seu marido.  No passado, para ajudar o marido com uma doença e conseguir dinheiro, ela falsifica a assinatura do seu pai para a família viajar e descansar na Itália.  Acontece uma chantagem em cima da dama, Nora precisa conseguir um emprego no banco para Krogstand, o homem que fez esse acordo com ela em troca da condição de esconder o documento de seu marido. Senhora Linde se posiciona de modo a que faça esta primeira revelar tudo para Torvald sobre esse crime.  Nora desperta o passado, resolvendo através da revelação e da confissão, ao seu marido Torvald, sobre esse ato de falsificação em um documento no passado. Ao revelar, Nora rompe a tradição, sai de casa e deixa de manter as aparências de calmaria no seio de uma família burguesa. “Na hora que Nora sai e bate a porta, abre-se um vão, o céu quase aborta. A lei que era morta, cai no porão” (Canção de Nora, Tom Zé). Ela pegou a história e fez com as suas próprias mãos.
Em ambos os casos dramatúrgicos, o passado é despertado no presente. No entanto, no tratamento de Édipo o problema é as pestes, isso é um problema real que existe no agora, precisa resolver hoje e aqui. No caso da Nora, o problema é esconder essa falsificação que fez no documento, um crime que pode deturpar a imagem da família perfeita e de Torvald; o problema é real, mas está no passado, mesmo precisando que seja resolvido no agora.
II
No Édipo despertar o passado, não trouxe a liberdade, prendeu-se para sempre no castigo e na eterna culpa que sentia por sujar a cidade e a sua família. Esse valor não foi possível realizar e cumprir-se nessa personagem. A culpa enclausurou sua existência e no fim separou uma parte dela para continuar vivendo. Na Nora despertar o passado, apesar de difícil, trouxe a liberdade, não era mais alegre, mas tomou a decisão de romper com o teatro burguês, ficando mais séria e saindo para constituir a história além da arte. Esse valor realizou-se nessa personagem, no entanto não sem arcar com as consequências, sem lutas ou conflitos, não houve romantismos e nem alegria quando Nora saiu de casa, abandonando o lar para escrever o seu próprio roteiro.
Em Walter Benjamim, o materialista histórico deve despertar no passado uma experiência única, deve imobilizar o presente e os gritos que ainda presidem o instante do aqui e do agora. Talvez, em Nora, isso se vê mais claramente, o passado é posto como uma experiência que precisa ser resolvida e que no final o presente é transformado. Nora muda o meio que vive e se modifica também.

Reflexões sobre autoria e arte                                                                                   
Agora vem a questão: qual é relação dessas obras com a arte que produzo? Nenhuma. É um processo dramatúrgico bastante utilizado, até esgotado por muitas pessoas. Porém, como não sou uma pessoa original, e é esses tratamentos que fazem e observo sobre o tempo presente, me interessam, então apenas noto e anoto para não esquecer e tentar imitar mais tarde.
Como falar do presente hoje sabendo tão pouco desse passado? O processo já andou e entrei nele já com “o bode andando”. Às vezes, por medo de errar, não fazemos o que queremos fazer, o temor nos atrapalha. Entretanto (longe disso ser um tratado de autoajuda!) de que vale a vida se fica proibido inclusive o verbo inventar nos nossos dias.
Estava re-escrevendo uma peça que trabalhava no começo do ano “Pra que não falar de amor em tempos de caos”, mudei todo o meu caminho. Transformei a maneira de contar a história e os dramas da juventude de Anabelle e Miguel. Dois jovens que precisam tomar alguma decisão em pleno fim do mundo.  Se Anabelle sair na rua no dia do fim do mundo vai morrer por causa das Forças Armadas e de uma massa intolerante de homens que estão loucos para matar mulheres de classe média, em compensação, ela não deseja que a sua mãe morra também por esse motivo, só que ela não pretende voltar para casa da tia e passar o ano novo comemorando o medo. Então... Ela precisa decidir se vai passar a noite do fim de ano e do “possível” fim do mundo dentro do quarto de motel ao lado de um rapaz que conheceu a pouco tempo e a pouco metros de distância em um bar? Todo enredo deve (não sei) passar dentro do quarto do motel, ambos contam a experiência de viver no último dia do ano e do caos do fim da história. Pra que esse texto é importante?
É uma tentativa de flagrar a relação de dois jovens com um mundo que está prestes a terminar uma história. Não é para revolucionar nem nada, nem para criar linguagem nova nenhuma, até porque é absolutamente banal e tosco. No entanto, conta sobre os filhos dos sobreviventes e sobre a escolha de alienação e individualização para se proteger contra um mundo violento. A necessidade de uma autoconservação e o trânsito de jovens que poderiam mudar a história que se refugiam dentro de um universo escondido e mais ou menos privado, no mundo de transição. Vivem nessa democracia que iniciou-se a pouco tempo, mas sem conhecer os mortos e os sobreviventes da própria história que já correu. Eles estão no meio do processo, mas são absolutamente ignorantes, sem saber qual caminho tomar, muitas vezes, não escolhem caminho nenhum. Ficam a beira.
Ainda estou re-escrevendo. Esse ensaio é só um desabafo. Talvez, eu nem termine.